Capítulo IX - Os Anéis do Poder: O Senhor da Liberdade - Parte 1

   

  Eu não lembro se a chuva era prevista pelos meteorologistas ou se eu fui a causa inconsciente para disfarçar minhas lágrimas. De qualquer forma seria inútil, pois ninguém exceto Poteta, havia aparecido a pedido de sua mãe para ter certeza que seu ganha pão havia morrido. E ele não demorou muito. Nem mesmo seu pai teve coragem de ir ver o túmulo de Ayala. Paguei ao coveiro para escrever o epitáfio “Será sempre lembrada.” Era uma forma de dizê-la que nunca a esqueceria.
Olhei para o relógio. A reunião já tinha começado.

Entrei num clube cujo interior estava completamente vazio de móveis, mas apinhado de barreiras de todas as ruas da Liberdade. Entre eles, reconheci o líder Muriel e sua trupe e dois colegas meus da rua adjacente ao clube: Marquinhos (Marcos) e Douglas. Líder e vice-líder respectivamente. Olhando mais um pouco, fiquei meio aliviado. A barreira de Marquinhos estava lá em peso e eu conhecia todos eles. Inclusive ele estava dizendo:
− Somos a barreira mais antiga daqui e a que teve menos alterações em sua hierarquia principal. Temos a nosso favor a experiência.
− E que grandes feitos você fez? − perguntou um outro líder. − Por acaso derrotou alguma torcida organizada? Pois nós desbancamos os dois Distritos[1] da Liberdade e em breve estaremos derrotando os Distritos do Largo do Tanque.
− Se é para falar de conquistas, então nós temos muito mais direito, pois vencemos dois dos quatro líderes dos Templários. − disse Muriel.
No silêncio de surpresa que se formou, eu interrompi sua autogabação:
− Na verdade eu que derrotei os dois. Sozinho. − e mostrei o anel de Yuri.
Um corredor se formou para que eu pudesse passar e subisse no pequeno palco onde Marquinhos se encontrava com Douglas.
− E aí? − cumprimentei eles.
− Na verdade eu prendi o líder que possuía esse anel. Anel este que você roubou de mim. − falou Muriel.
− Anel este, que usei para vencer outro líder dos Templários e o usarei novamente.
− Não muda o fato que você o roubou.
− Ladrão que rouba ladrão…
− Pra começo de conversa, quem é você e o que faz numa reunião de barreiras sem ser convidado? − perguntou o líder que derrotou as torcidas da Liberdade.
− Soube que estava tendo uma reunião aqui para decidir o líder da barreira da Liberdade. Eu vim me candidatar.
− E você tem barreira? − perguntou outro líder de boné da Mahalo.
− Não vi nenhuma regra aqui que dissesse que o líder precisaria ter barreira, apenas ser da Liberdade. − falei mostrando um panfleto que foi divulgado pelas ruas do bairro.
− Isto estava implícito. − respondeu gaguejando.
− Isso é ridículo. − contestei. − posso muito bem liderar essa barreira. Sou capacitado e com esse anel posso me infiltrar no grupo e matar os outros dois líderes sozinho.
− Se pode fazer isso sozinho, pra quê precisa de uma barreira? − questionou um vice-líder num canto fazendo muitos concordarem com ele.
− Por que os líderes também têm sua “barreira”. Posso vencer os líderes, mas não posso vencer todos os Templários.
− Acho justo. − falou Marquinhos. Era bom ter ele me apoiando. Ele era um líder forte e conhece-lo só iria me ajudar.
− Eu não vou seguir você. − falou Muriel de prontidão.
− E eu não vou seguir ninguém a não ser eu mesmo. − falou um líder ao lado dele.
− Assim não chegaremos à conclusão alguma. − ouvi uma voz feminina falar, mas demorei a identificá-la na multidão. − Eu sugiro uma votação entre os líderes. − disse ela.
− Concordo. − falou Marquinhos ao meu lado.
− Eu voto em mim. − anunciou Muriel.
− Eu também. − o do boné da Mahalo. – Em mim, quero dizer.
− Em mim. − ecoou o que desbancou as torcidas.
E foi assim com todos os líderes, inclusive comigo, exceto, com Marquinhos:
− Eu voto em Danilo.
Surpresos, todos se calaram e fitaram o loiro ao meu lado. Ele alisou os cabelos lisos e disse:
− Voto é pessoal, não é?
− Sendo assim, acho que o líder da Barreira da Liberdade é Danilo. − anunciou a garota o que ninguém mais teve coragem para dizer.
Todos estavam atônitos, inclusive eu que não esperava aquela conquista tão rápida e pacífica.
− E você já tem seu vice-líder? − perguntou ela.
− A-ainda não.
− Indica algum?
− Sim. Marcos.
− Obrigado, Danilo. − disse Marquinhos meneando a cabeça pra frente. − Douglas… − meneou para o lado. Em minha direção.
Ele piscou várias vezes, incrédulo, antes de Marquinhos se virar para ele e perguntar:
− O que você está esperando?
Ele tocou no braço que usava a soqueira transformando-o em uma lâmina de um metro e desceu com força sobre mim. Num ato-reflexo criei uma barra de gelo e detive seu golpe.
− O que está fazendo?
− Lhe ensinando a primeira regra das barreiras. Quando o líder morre, o vice assume. Como eu sabia que você me escolheria como seu vice-líder, votei em você. Uma vez morto, eu assumo a liderança.
− E se nós matássemos os dois? − indagou o líder próximo da guria que instaurou a votação puxando seu 38 e disparando contra Marquinhos, mas a bala rechicoteou numa aura transparente que surgiu ao redor dele. Em seguida ele apontou a mão como um gancho e fez surgir à mesma aura no pescoço do líder que lhe atacara. Não demorou muito para que o cara sucumbisse sem oxigênio.
− Se vocês me ajudarem a matá-lo, prometo ser um líder excelente.
Aquilo não estava acontecendo. A única pessoa que eu acreditava poder confiar, me jogou numa armadilha e pôs todas as barreiras da Liberdade contra mim, o que não era pouco.
Distraído fui pego por um chute de Douglas que me jogou no piso de baixo onde dezenas de líderes, vices e capangas me esperavam com suas respectivas armas. Tencionei me liquefazer, mas em vez de uma poça ambulante de água, meu corpo se transformou em uma densa fumaça negra muito mais útil para passar por cima de todos e sair pela porta.



Segui assim até chegar a escada da minha rua.
− Uau! − disse experimentando pela primeira vez o anel de Maçã.
− Poderoso, hein? − falou Vinny-Dellas (Vinicius) sentado no muro da casa de Leo, que era primo dele.
− É, mas não o bastante para me proteger da barreira.
− Que barreira? − disse ele saltando do muro.
− Da Liberdade.
− Qual delas?
− Todas.
− Todas?! O que fez pra todo mundo ta querendo te matar?
Fiz um breve resumo enquanto analisava a rua a procura de um lugar para me esconder. Não podia ficar em casa, pois Marquinhos sabia onde eu morava e certamente estaria vindo para cá.
− Que amigo da onça, esse.
− Nem me fale. Mas preciso me esconder até saber que medida tomar. Tem alguma casa abandonada que eu possa ficar por um tempo?
Ele pareceu refletir.
− Acho que sim. − ele espirrou e passou a mão na minha camisa.
− O que é isso? − perguntei olhando pra catarrada na minha blusa.
− Estou lhe passando um vírus de computador.
− De computador? Esse catarro verde não me parece nem um pouco virtual.
− Ele vai deixar você virtual. Aí vou poder botar você nesse pendrive, de onde ninguém poderá te pegar. − falou tirando um pendrive do pescoço como um pingente.
− E isso vai servir?
− Espero que você seja um arquivo pequeno. − falou colocando a entrada do pendrive no meu braço.
Foi como se tivesse acionado um aspirador de pó potente, que me sugou para dentro do pequeno aparelho. Foi uma sensação esquisita de confinamento e quando finalmente entrei no aparelho me vi em um universo completamente diferente. Aliás, o pendrive de Vinny-Dellas era mesmo como o cosmo. Onde os astros flutuavam em forma de pastas, rolos de filme, partituras de músicas e outros ícones de computador. Quando olhei pra mim, estava parecido com o que seria um arquivo zipado.

Não sei quanto tempo depois, fui baixado na lan house da tia de Pombinho que estava com a porta de ferro baixada. Além dele, estava o primo de Vinny-Dellas, Leo; Dente; o primo deste, Poteta; Bolo e Papel.
− Uau. O que vocês fazem aqui? − indaguei sentindo como se meu corpo acabasse de ser descompactado.
− Achei melhor trazê-los, para o caso de alguém nos seguir.  − falou Vinny. − E também para lhe ajudar.
− Valeu, Dellas.
− Dellas nos contou o que aconteceu. − começou Pombinho. − No que estava pensando ao se candidatar ao cargo de líder da barreira da Liberdade?
− Precisava de um grupo forte para derrotar os Templários. − expliquei. − Soube que eles estavam se unificando, então achei que poderia liderá-los.
− Não se pode confiar em barreiras, Braço, por isso que nunca tivemos nenhuma. − falou Papel.
− Eu sei, mas não posso derrotá-los sozinho. Eu precisava de ajuda.
− E por que não nos chamou? − perguntou Leo.
− Por que isso não vai ser uma briga de rua, vai ser uma guerra e nunca estivemos em guerra antes. Não é o mesmo com as barreiras, onde algumas até já derrotaram as torcidas organizadas daqui.
− É, e agora esses soldados estão atrás de você. − falou Bolo.
− Boa, Braço. Você fez muito melhor. Valeu. − ironizou Dente me acenando um legal.
− Eu não preciso de sermão agora. − falei ríspido. Aquele dia lúgubre não ficaria melhor com meus amigos me criticando. − Só um local pra me esconder até eu pensar no que fazer.
− Você pode ficar lá em casa. − ofereceu Pombinho. − Quanto mais distante da Liberdade, melhor.
− Quanto à barreira, a gente pode atacar o vice-líder. − opinou Leo.
− É mesmo. − falou Bolo. − Uma vez que ele for derrotado, ninguém terá motivos para querer te matar, já que você é o líder.
− É, isso faz sentido. − disse, mas não estava me sentindo muito melhor por causa disso.
− A ideia é boa, o que foi? − perguntou Papel percebendo minha cara.
− Eu não posso derrotá-lo. Ele é mais forte do que eu.
− Você está com medo? − Perguntou Dellas.
− Claro que não! − sim, eu estava, mas tinha meus motivos. − Só afirmei um fato antes averiguado. Ele já me venceu. Mais de uma vez. − e mais de uma maneira.
A verdade era que eu temia Marquinhos com todas as minhas forças. Odiava quando minha mãe ia visitar a amiga dela (mãe dele) e me levava junto. O que me aliviava era que eu não era o único, por isso que Douglas me atacou naquele clube.
− Com medo ou não, é melhor você ficar lá em casa. Papel pode ficar com você lá, já que eu tenho que tomar conta da lan e os outros podem ir atrás dele.
− Não será suicida atacar o vice-líder de todas as barreiras da Liberdade? − perguntou Dente.
− Todas as barreiras vão estar caçando Braço. Provavelmente ele só vai ta com a barreira mais próxima dele. − falou Vinny-Dellas.
− Tem razão. − falei. − E eu sei quem são e os poderes de cada um da barreira dele. − comecei pelo próprio Marquinhos e fui para Douglas chegando ao resto da gangue: – Ailton seria como o imediato da barreira. Ele possui, não um canivete, mas uma adaga que congela tudo que sua lâmina toca e tem um corte impressionante.
“Caio não sabe quase nada de luta, mas tem uma técnica quase infalível de criar bolinhas. Desde gudes a bolinhas de ping-pong. As balas de Marquinhos são feitas com essas bolinhas de ferro. São três delas no lugar de cada cápsula de bala tradicional. Não deixem ele tocar em vocês: já vi ele criar um bola de borracha na garganta de um cara lá que tava devendo a barraquinha da avó de Marquinhos.
“O oposto deste é M&M (Mauricio Mateus). Ele luta como um ninja, mas assim como eu, não possui nenhum poder. Quer dizer, há quem diga que ele sente cheiros estranhos, como de virgens, de mentira ou mesmo de acidente que está prestes a acontecer. Mas não acho que chegue a tanto. E ele é a menina do grupo.” Preferi não comentar que uma vez peguei ele fazendo bola-gato no chefe.
− Tem também Estevão, o Lanterninha. Mas não se enganem com seu dedinho brilhante. Ele pode fazer qualquer coisa simplesmente perder a gravidade e flutuar podendo até sair pela atmosfera. Já vi ele fazer isso com a bola de uns caras que não queriam deixar eles jogarem. Enquanto discutiam, ele fez a bola flutuar até se perder de vista.
“E por último, mas não menos importante, tem Back. Ele é a sombra de Marquinhos. Literalmente. Onde um está, o outro também está. Dizem que ele nasceu sem alma, por isso não tem sombra, por isso ele fica preso feito um parasita na sombra dos outros. Depois que encontrou a alma/sombra suja de Marquinhos, ele não desgrudou mais. Se ele estiver lá, Marquinhos também estará.”
− Valeu Braço. Vamos nos lembrar. − falou Vinny-Dellas. − Agora volte pro pendrive que vou deixar com Mãozinha e deixe que cuidamos deles.
− Valeu, galera. Obrigado mesmo.
− Relaxe, estamos aqui pra isso. − falou Poteta.
Era estranho ouvir ele dizer isso, primeiro porque ele não falava nada a mais do que “é mesmo” e segundo porque anos atrás ele era o nosso Inimigo da Rua de Cima. É, em momentos de crise, as coisas mudam.

Fui novamente descompactado na casa de Pombinho na barra. Pelo que eu entendi, ele trouxe Papel nas costas e veio correndo em alta velocidade. Ele ainda não sabia voar.
− Fiquem aqui. Usem o laptop que, da lan, eu posso lhes avisar de alguma coisa. E fiquem à vontade. A casa é de vocês.
− Certo Chico (Diego Francisco/Pombinho/Mãozinha). − disse Papel.
Pombinho voltou para a liberdade e deixou eu e Papel a sós.
− Ta com fome? − perguntou indo pra cozinha.
− Não, Thanks. − liguei o laptop e, enquanto reiniciava fui pra ampla janela da casa de Pombinho.
A chuva torrencial da Liberdade e adjacências parecia um boato na Barra. O sol brilhante e o céu azul pareciam debochar de meu luto.
Olhei para o anel negro que Maça havia me dado. Não sabia por que ela o temia tanto, embora sua pedra obscura não ajudasse muito ter uma boa opinião sobre ele. Era como se todo um mundo nefasto se escondesse naquela pequena pedra. Toda negritude e trevas, as mesmas trevas que estava em mim naquele momento. De repente me senti como se pertencesse àquele mundo obscuro. A luz do sol me ofuscava como se não fosse acostumado a ela e sim ao breu e o breu do meu anel se tornou tão visível quanto à caverna é ao morcego. Um universo completamente diferente de tudo que eu havia visto se descortinou bem diante dos meus olhos e me senti parte dele. Não.      
Eu era dono dele.
Tirei de seu ninho pútrido um pequeno orbe negro como a noite, mas a única estrela visível era um olho escarlate que se fixava em mim. E ele dizia:
− Sim, mestre.
− Observe-os. − falei com a garganta seca de excitação. − Quero saber tudo o que eles estão fazendo.
“Quero ser onisciente.” Pensei, pois eu era o deus de um universo.
O pequeno globo negro se transmutou no que seria uma mosca e voou possante até a Liberdade. Chegou a rua de Marquinhos e viu meus amigos em frente a casa dele. Vinny-Dellas dizia:
− Soube que há uma busca por um cara aí. Viemos saber se ta valendo alguma coisa.
− Vocês são uma barreira? − perguntou Douglas insatisfeito com aquilo.
− Precisava ser? − questionou Leo.
− Não, não. Entrem aí que vou falar com Marquinhos a respeito.
Eles caíram na farsa. O plano parecia ir bem.
Eles subiram as escadas e seguiram Douglas por um corredor até a última porta antes da copa que ficava o quartos de Marquinhos, então de lá saiu Caio que gritou:
− Eles são os amigos de Danilo! Estão escondendo ele.
Droga!
Douglas se virou com o braço já em forma de lâmina atacando Dellas que se defendeu com uma barra de rolagem que criou na hora. Atrás do vice-líder, Caio tentou acertar Leo que socou o chão rachando ele exatamente onde o cara das bolinhas estava, derrubando-o. Contudo atrás do meu grupo, cercaram Ailton e M&M. o primeiro sacou sua adaga, mas seus braços e pernas foram envolvidos pelas chamas de Bolo. Logo atrás M&M pulou por cima dele para desferir uma voadora na boca de Dente que o mordeu e o jogou na parede.
Do quarto da mãe de Marquinhos, Lanterninha disparou pelo seu dedo luminescente um raio contra Poteta que, intangível, escapou do poder e lançou os seus dois raios pelos olhos lançando o “Dedinho” contra a parede do cômodo. Em seguida ele atravessou Leo, Vinny-Dellas e Douglas que fechavam a passagem e foi até Caio que lançou uma bolinha de aço no cano exposto pela rachadura no chão que vazou um jato forte de água bem na cara de Poteta. Distraído, ele tomou uma rasteira e caiu.
Douglas chutou a barriga de Vinny-Dellas e o atacou novamente, dessa vez com várias sequências, todas bem defendidas.
Sem ter pra onde ir, Leo atravessou a parede num ponto e voltou por outro atrás de Caio criando duas enormes crateras. Quando o capanga se virou, recebeu um jab indo a nocaute.
Do chão, M&M chutou a perna de Dente derrubando-o também para depois partir pra cima dele, ficando por cima e lhe dando uma gravata.
Bolo lançou Ailton para fora da casa com seus tentáculos de fogo e depois fez o mesmo com M&M lançando-o porta a fora.
Dessa vez era Douglas que estava cercado, então Poteta apontou:
− Back!
Todos olharam para o magricela desnutrido que saiu do quarto de Marquinhos no mesmo instante em que um vulto passou rápido para a copa. Quando minha galera o encarou ele estremeceu e saiu correndo seguindo o vulto. Leo e Poteta que estavam perto, foram atrás do Sombra. Vinny-Dellas espirrou no rosto de Douglas que depois brilhou em tom azul, ficou meio translúcido e desapareceu.
− Ctrl+x, ctrl+v. − explicou pros caras que vieram logo atrás.
Minha mosca os seguiu pela copa, passando para uma porta que dava num corredor externo que levava ao jardim dele.
− Ele está fugindo para o jardim onde poderá fazer sua transformação.
− O que? − perguntou Papel da cozinha.
− Nada. − disse ainda olhando pelos olhos da mosca.
Os caras correram atrás de Back até o platô de pedra que antecede a entrada do jardim. A mosca era a última da fila, portanto, a primeira coisa que vi foi um a um dos meus amigos estacando surpresos. Ao chegar lá, vi a cena terrível: todos os líderes, sob o comando de Muriel apontavam armas para meu grupo.
− Como formigas atraídas pelo mel.
Poteta recuou cautelosamente até a parede, mas sua intangibilidade não funcionou da mesma forma que Vinny brilhou em tom azulado, mas não se teletransportou como fez com Douglas.
Eles foram pego numa armadilha.
A porta foi destrancada e ao me virar a garota do clube entrou apontando a arma pra mim. Havia um cara já dentro da sala que tinha aberto a porta, só não fazia ideia de como ele tinha entrado.
− Nem se mexa. − falou a garota apontando o 38 contra o meu peito. Atrás dela entrou outra garota que ficou do outro lado, mais próximo da cozinha.
De lá, Papel criou uma barra de gelo, na qual escrevi: “tem + 2, 1a perto d vc.”.
− Como me achou aqui? − perguntei observando o seleto grupo.
− Contatos. − disse ela com um sorriso. − Um líder que peguei aqui, outro no Campo Grande… meus carnavais são bem proveitosos.
− Tecnicamente, vocês não deveriam estar me obedecendo, já que eu que sou o líder?
− Tecnicamente, obedecer você seria ficar contra Marquinhos e todas as outras barreiras. Então, não. Matar você é mais fácil.
− Isso é o que você diz.
Controlei o sangue da garota empurrando para a parede que foi automaticamente congelada por Papel ao meu sinal. A menina também foi congelada. A líder se distraiu olhando pra trás e recebeu a barra lançada pelo meu broder bem na cara, caindo e deixando a arma rolar de suas mãos. Contra o outro cara lancei uma corrente de gelo prendendo-o, mas ele se desfez em pó e como uma tempestade de areia me envolveu se refazendo atrás de mim me dando uma gravata com braços de pedra. Papel lançou um disco de gelo para cortar o braço de meu algoz, mas eles se mostraram inúteis, ou, no mínimo um paliativo de uma solução que, pra mim, naquele estado, dava no mesmo. Me liquefiz e envolvi o desgraçado fazendo-o se transforma numa poça de lama.
Uma vez livre envolvi a arma da líder com sombras que cortavam tudo que se aproximava. Já recuperada ela se levantou e viu suas crianças derrotadas.
− Parabéns! − disse indo se sentar no sofá como se esperasse pelo chá que não ofereci. − Você foi mais do que surpreendente.
− Derrotamos seus capangas e você nos parabeniza? − indagou Papel.
− Isso tudo foi um teste. Queria saber se você era forte o suficiente para poder me aliar sem correr riscos desnecessários.
− Não acredito em você. Só está dizendo isso para poupar sua vida.
Ela riu.
− Poupar minha vida? Se quisesse você morto, já teria conseguido. − ela apontou com a cabeça a janela. − Olhe para o prédio à sua frente, décimo sexto andar.

Me virei deixando-a sob a guarda de Papel e olhei no prédio em frente no andar indicado. Numa janela bem de frente para nós tinha um cara apontando uma arma em minha direção. A cortina o camuflava, mas pra quem sabia onde olhar ele era até fácil de ser visto.
− Se quisesse sua cabeça, não precisaria nem estar aqui.
− O.k. Agora que fui pesado, medido e considerado suficiente, como você irá me ajudar contra Marquinhos?
− Primeiro você precisa ter sua própria barreira.
− Não formamos barreiras. − respondeu Papel por mim.
− Pois é bom formarem. Precisamos fazer um ataque inesperado com uma força que Marquinhos desconhece.
− Em primeiro lugar, porque quer nos ajudar? − indaguei. − Como você disse, é bem mais fácil nos matar.
− Não vou ser a piriguete[1] de um ditador-mirim. É você morrer que na sua missa de sétimo dia entramos em guerra com as barreiras do Pero Vaz, Bairro Guarani, Curuzu e adjacências até ele conquistar a cidade inteira. Seu plano sempre foi esse, só lhe faltava a oportunidade.
− Isso não é tudo. O que está escondendo? Por que me olha como se nos conhecêssemos há anos.
− Por que nos conhecemos há anos.
− O que? − Dessa vez consegui falar junto com Papel.
− Você não se lembra de mim, por que guardou suas lembranças no seu jardim.
− E-eu tenho um jardim?
− Tem. − falou ela relutante.
− Por que eu não lembro disso?
− Porque você guardou suas memórias, lembra? − Oi?  
− E por que eu faria isso?
− Se fosse pra você saber, não tinha guardado o motivo junto.
− O que mais eu guardei lá? − perguntei temendo ter deixado meus poderes lá também por causa de alguma idiotice.
− Se Marquinhos te matar, isso não vai fazer a menor diferença, portanto se concentre nele.
− Marquinhos é um assunto resolvido. − disse Papel tentando me ajudar,
− Na verdade não. − mas sua ajuda foi em vão. − Eles caíram numa cilada feita por Marquinhos. Ele deixou toda sua barreira em sua casa, inclusive sua sombra, mas ao irem atrás dele se depararam com todos os outros líderes.
− Não todos. Marcos destacou eu, o cara do boné da Mahalo e o que venceu as torcidas pra o acompanharem pessoalmente atrás de você.
− Ele está atrás de Braço sem barreira?
− Certamente ele tem uma carta na manga. − disse. − Marquinhos é inteligente o suficiente a ponto de usar minha única vantagem sobre ele contra mim.
− Você tem razão, mas é um coringa bem escondido. Nem eu sei o que ele planeja, por isso temos que ataca-lo de surpresa. Já que você mandou sua… galera − ela ia dizer barreira. − na casa dele e eles foram surpreendidos, Marquinhos vai achar que você está só. Mais um motivo pra você criar sua barreira agora com um contingente do máximo de pessoas que você conhecer de sua área.
− Eu conheço muita gente. − isso não queria dizer que ia aceitar a ideia dela de prontidão.
− Chame todos. Quanto maior, melhor.
− Vai mesmo liderar uma barreira? − perguntou Papel.
− Eu não disse isso.
− Se não fizer, você vai morrer. − odeio frases fatalistas, mas tinha que concordar: ela estava certa.
− Ta, mas como vou reunir todo mundo, exilado aqui?
− Pra isso existe MSN. − falou Papel indo pro notebook de Pombinho. − Podemos marcar uma reunião com todos em um lugar neutro.
− Primeiro vamos ver se todos concordam com isso. − disse relutante.
− Pode trazer de volta meus guerreiros?
Enquanto Papel agrupava todo mundo numa mesma janela de MSN, eu descongelei a menina e tirei a água da lama que era o menino. Ambos se juntaram mim e a…
− Como é mesmo o seu nome?
− Érica. Nem acreditei que o veria de novo quando vi você cruzando aquele salão para se oferecer como líder da barreira da Liberdade.
− Desculpe não me lembrar de você.
− Foi melhor assim. Se Marquinhos não sabe que nos conhecemos, não vai desconfiar de mim.
E nos concentramos em Papel:

(Para ver todas as fontes dessa conversa, baixe e instale clicando aqui)

Inho Vila diz:
Ta tdo mundo aí?
Nandoo (Ricardo) diz:    
Q tumultooo é esse aki, mermao?
Diego Corleone (Pombinho) diz:
Rômulo, o que foi? Está tudo bem aí?
Inho Vila diz:
Ta sim.
E q braçoo quer falar c td mundo ai
Sou um Frankenstein bonito (Xalau) diz:                    
Bora nilo-brocke!!!
Inho Vila diz:
Danilo: Bora xalau  (Ualax)
Ta td mundo aê?
Diogo o Trasgo (Trago) diz:
Axo q ta
Tem uma barrera no MSN
Nandoo diz:
Vai convidar a gnte p carurivis de sete meninos é?
Paulinho (Paulo) diz:      
Vc ker dizer 70 né mestre
Inho Vila diz:
hahahahha
John Pomponet via ebuddy diz:
Ki letra rosa é essa nandinho?
Humbertinho (Humberto) diz:   
É 1 viadão
Nandoo diz:
Issu n é rosa é fuscia fio
Thiago[2] diz:
Pra mim é rosa
Humbertinho diz:           
P mim tbm
Sou um Frankenstein bonito diz:                     
Marão aconselhe seu irmão
Paulinho diz:       
kkkkkk
Juninhooo Porradão (Mário Júnior) diz:          
Eu tento fazer ele ser maxo, ele n ke.
Diogo o Trasgo diz:
Ai ñ tem mais jeito ñ fio
Nandoo diz:
Vc é home[3]
Diogo o Trasgo diz:
Ai jah foi
Vc é mais
Paulinho diz:       
kkkkkk
Thiago diz:
Os 2 são home
Diego Corleone diz:        
Galera, Braço ta querendo falar uma coisa importante.
Lucas diz:
Q resenha desses cara viu
kkkkkk
Inho Vila diz:
Danilo: é, galera. É rapidão.
Sou um Frankenstein bonito diz:                     
Diga nilo-brocke
Inho Vila diz:
Danilo: é que tem um cara kerendo me matar
John Pomponet via ebuddy diz:
Fale kem e q a gente mata ele atne
*antes
Sou um Frankenstein bonito diz:                     
É ideia john_pomponet
Thiago diz:
Diz o endereço q a gente capa ele
Paulinho diz:       
1o eu pego o poder dele, dps a gente mata
Inho Vila diz:
Danilo: v6 vão msmo me ajudar?
Nandoo diz:
Claroo né fio.
Diogo o Trasgo diz:
Vc fik de isca, ai qndo ele xega a gente panha ele
Lucas diz:
Purra
ó pa diogo!
Sou um Frankenstein bonito diz:                     
Diogo é inteligente bunitinho (Lucas)
Nandoo diz:
Xalau é um frnakstein bunito e diogo é um trasgo inteligente.
Lucas diz:
E Danilo e um braço o q?
Paulinho diz:       
Grande
Nandoo diz:
Iiiiiii
Já viu, né discaradoo
Juninhooo Porradão diz:
Esses caras sao estranhos viu
Lucas diz:
kkkkkkkkkkkkkkkk
Thiago diz:
kkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Diogo o Trasgo diz:
Hahahahahaha
Paulinho diz:       
Lá ele
Sou um Frankenstein bonito diz:                     
Dps falam da letra do garoto nando
Nandoo diz:
Ta vendu aí xalau
Inho Vila diz:
Ô cambada, Braço ker falar
Diogo o Trasgo diz:
Já ta decidido, rpz
Vc vai de sica e pegamos eles
**isca
Lanee araújo entrou na conversa
Lanee araújo diz:
Oiiii genteee
Vcs vão fazer uma barreira é?
Nandoo diz:
Kem xamou barbie na conversa rpz?
Lanee araújo diz:
Oxiii já tava de hjee
V6 vão fazer uma barreira é?
Posso entrar tbm?
Humbertinho diz:           
N elaine
Se saia
Thiago diz:
Barrera é pra homem elaine
N p barbie c defeito de fabrica
Uhauhauhauhauhauhauh
Lanee araújo diz:
Mais eu posso ajudaaa
Sou mais maxo q muito homem
John Pomponet via ebuddy diz:
Mais macho q nandinho com certeza
Nandoo diz:
É pq vc é mais home do q eu
John Pomponet via ebuddy diz:
Nada disso
Inho Vila diz:
Danilo: barbie, pé-duro (Thiago) ta certo
Essa barreira é só para os caras
Lanee araújo diz:
Vc e o líder éee?
Lucas diz:
Se ele ta juntando uma barrera é claro q ele é o líder.
Sou um Frankenstein bonito diz:                     
E ropomponet vai ser o vice
Lanee araújo diz:
E v6 tem armas e soqueiras e canivetes?
(dois minutos de silêncio)
Poiis éee
Axei q nãooo
Posso providenciar issoo
Falooo c os anões de castro alves[4] e eles fazem a armaaa, a soqueiraa e o canivetee
Mas ai eu vou ter quee entar na barreiraaa tbm
Inho Vila diz:
Danilo: e qndo vc pode entregar?
Lanee araújo diz:
Eu vou estar na barreiraaaa?
Inho Vila diz:
Danilo: vai

− Vei, você ficou maluco? − me perguntou Rômulo em off.
− Ela não vai entrar. − informei. − Mas ela não precisa saber disso agora.


John Pomponet via ebuddy diz:
Que barbie o q rapaz?
Ta maluco é
Lanee araújo diz:
A decisaoo foiii do líder da barreiraaaa
Se ele disse q eu vou, eu vouuu
Diego Corleone diz:        
E onde nos encontraremos?
Aqui na lan não tem espaço.
Sou um Frankenstein bonito diz:                     
Faz na ksa da namorada de trago.
Thiago diz:
Onde é isso?
Diogo o Trasgo diz:
Vc desce a rua toda
Qndo chegar na outra voc entra naquele becu do acarajivis e segue o becu tdoo
E no final do becu tem a casa de natalia.
Juninhooo Porradão diz:
E no final do seu be cu ne?
Diogo o Trasgo diz:
La ele
Lucas diz:
Trago muda isso aí rpz
Nandoo diz:
Trago é burroo p poha vei
Inho Vila diz:
E v6 dizendo q ele é inteligente
Diogo o Trasgo diz:
E é cm?
Diego Corleone diz:        
Beco
Com O
Diogo o Trasgo diz:
Ahhh
Sou um Frankenstein bonito diz:                     
bhhh
Nandoo diz:
chhh
Paulinho diz:       
Dhh
Inho Vila diz:
ZHHHH
Danilo: Então ta marcado.
20h na casa de natalia
Juninhooo Porradão diz:
Fechou la
Thiago diz:
De boa
Sou um Frankenstein bonito diz:                     
Estaremos lá nilo-brocke
Inho Vila diz:
Danilo: então até mais.

Oito horas da noite em ponto eu fui descompactado na casa de Natália. Além dela, de mim e de Papel, estava Pombinho, Trago e John, primo de Papel.
− Pó, Pamonha, você é foda, viu. Tava lá na ilha de boa…
− Quem te chamou foi Braço. − respondeu Papel.
− É, pelos motivos já explicados.
− E por que essa ideia de repente de formar barreira? − perguntou Pombinho.
− Foi ideia de Érica, uma líder do Beco do Cajá.
− Uma líder? Eles não estão procurando por você?
− Ela não quer servir a Marquinhos. E também disse que me conhece.
− De onde?
− Ela não disse.
− E você acreditou nela?
− A verdade é que se ela quisesse me matar, teria feito e eu nem saberia de onde veio o tiro.
Pombinho olhou pra Papel que acenou afirmativamente com a cabeça. Nesse momento bateram à porta e Natália abriu com telecinese. Uma pena porque aquela morena é simplesmente gostosa e estávamos esperando que ela rebolasse pela sala até a porta. Dizem que o pai dela era um Íncubo e que, apaixonado pela mãe dela que já era tão linda quanto, deixou que ela vivesse e até mesmo desse a luz a um filho seu. Mas como era de se esperar, ele nunca mais deu as caras. Sorte nossa, azar o dele. 
Paulinho e Humbertinho chegaram acompanhados de Pé-Duro que já começou:
− Lençol! Lençol, não. Líder Lençol.
− E aí. − disse cumprimentando ele.
− Já ta todo mundo aqui? − perguntou Paulinho reconhecendo seu atraso.
− Não. − respondi. − Falta Nandinho, Marão, Xalau e Bunitinho.
− Por que você não trouxe logo os cara, Diogo? − perguntou Papel.
− Eu falei com eles, mas Nandinho disse que ainda ia tomar café e Juninho falou que ia esperar ele. Xalau falou que ia esperar Juninho e Bunitinho falou que ia quando os caras passassem lá.
− Que tumulto desses caras, viu. − falou Pombinho.
− Enquanto isso conte aí porque o pivete quer te bater. − pediu Paulinho.
− Na verdade ele é líder. − contei sobre Maçã, os Templários, a tentativa de liderança do bairro. Era melhor contar toda a verdade, já que eles depositaram sua confiança em mim de forma tão espontânea.
Nesse meio tempo, chegou Nandinho acompanhado pelo resto da nova barreira. Ao término do relato, um brilho ofuscou a sala e ao se apagar revelou uma garota trajada de rosa, o que incluía um boné, um lenço no rosto e óculos escuros. Nas costas um par de asas de borboleta em tons de rosa bebê, rosa choque, salmão e fúcsia

− Elaine? − perguntei.
− Como adivinhou?
− Quem mais ia usar essas roupas discretas? − indagou Nandinho.
− Essas asas, então… discretíssimas. − riu Bunitinho.
− Ah, gente, é que meu glamour[1] acabou e sem ele eu fico horrorosa, aí eu pus a máscara e os óculos.
− E você tem asas de mariposa? − perguntou Paulinho.
− Epa! Isso aqui é borboleta.
− Pra mim parece mariposa.
− Aí é Barbie-Com-Defeito-De-Fábrica, rapaz. − informou Pé-Duro. − Cê acha que ela ia vir com asa certa é?
− Ô gente… − suspirou rindo junto com os outros,
− Trouxe as armas? − exceto eu.
− Trouxe sim. − ela tira das costas com certa dificuldade, por causa das asas, uma mochila rosa e abre mostrando as armas feéricas. Ela me passa um 38 com desenhos em seu metal. − Essa é a sua arma. Tem balas de vários tipos e sua potência é aumentada.
− Ela se recarrega sozinha?
− Eu sou fada, não sou bruxa.
− E toda aquela história de glamour?
− É um tipo de magia, mas é mais baixa que a magia dos bruxos.
− Sei.
Em seguida ela passou a soqueira pra Papel e os canivetes pro resto da galera.
− E qual será o plano? − perguntou Marão.
− Iremos até a casa de Marquinhos resgatar o resto da galera e prender os líderes que estão lá. Uma vez sem líderes, os vices não saberão o que fazer, e mesmo que saibam, eles levarão um tempo pra perceber que estão comandando as barreiras o que nos dá uma margem de ação para caçarmos Marquinhos e detê-lo.
− Onde o encontraremos? − perguntou Nandinho.
− Pode deixar que cuido disso.
− E como a gente vai pra lá sem que enfrentemos as barreiras que estão à sua procura? − indagou Pé-Duro.
− Nandinho pode nos teletransportar. − falou Xalau.
− Mas eu não sei onde é a casa, Xalau.
− Nem é preciso. − falou Papel. − podemos ir no pendrive de Vinny-Dellas.
− E quem vai levar? − perguntou Paulinho.
− Natália. − falou Pombinho.
− Eu?
− Você vai como presente de Braço para Marquinhos como espécie de acordo de paz. Provavelmente Marquinhos não vai estar lá, então quem vai recebê-la vai ser o líder responsável de lá, no caso o vice-líder, então enquanto você o distrai, tira a gente do pendrive, rendemos o líder e forçamos a liberação do resto do pessoal.
− Marquinhos não deixaria sua casa sob o comando de Douglas, mas isso e um detalhe. − falei. − O plano é bom. − Peguei o pendrive e dei pra Natália que um a um colocou os caras dentro do pequeno aparelho. Na vez de Barbie, interrompi. − Você não.
− Mas você disse que eu ia participar da barreira. Consegui até uma lâmina de ferro-frio rosa.
− Você já faz parte da barreira, mas tem que ficar alguém aqui protegendo o QG. Se alguma coisa acontecer, você nos avisa além do que ninguém vai desconfiar de uma barreira alojada aqui com uma fada-Barbie.
− Poxa…
− Você será muito útil aqui. − lhe assegurei.
Natalia me deu um beijo de boa sorte e me recolheu.

Quando fui descompactado, estávamos no quarto da mãe de Marquinhos onde os caras já me esperavam. Quer dizer, eles estavam vidrados na cena que ocorria na cama: Muriel estava por cima de Natália, ofegando como se nunca tivesse feito sexo na vida.
Antes que Trago tirasse o cara de cima de sua namorada da forma mais violenta possível, eu me adiantei, peguei a arma do líder em cima da bancada e encostei a minha na nuca dele engatilhando-a.
Ele levou alguns segundos até parar de vez e se ajoelhar na cama virando o pescoço pra mim.
− Diria que é louco pra vir aqui, mas pela sua nova barreira, diria que é apenas burro e autoconfiante demais.
− Cale a boca. Onde estão os meu amigos?
− Presos no jardim. − aquilo não era bom.
− Está mentindo. Tem um porão aqui em que Marquinhos já fez de calabouço.
− Mesmo? Bom pra ele, porque ele ordenou que fossem postos no jardim.
− E aonde? Presos em alguma planta carnívora?
− Na Cabana. − aquilo definitivamente não era nem um pouco bom.
Todos nos olhavam esperando. Me virei pra Natália e ela já tinha sido vestida por Trago (se dependesse dela, continuaria nua).
− Vista-se. − enquanto Muriel colocava a roupa, dei as ordens: − Pombinho e Papel, vocês já conhecem a barreira de Marquinhos. Ache-os e os subjugue. Leve Paulinho e Pé-Duro com vocês.  − eles aquiesceram. − Nandinho, leve os outros, exceto Trago, atrás dos líderes e façam o mesmo. − também saíram. − Natália, fique aqui e deixe pensarem que ainda está com Muriel, mas se alguém entrar, ou desconfiar, não deixe que ele saia daqui.
− Pode deixar.
− E quanto a mim? − pergunto o trasgo.
− Você vem comigo.
Já vestido, levei Muriel até a parte de fora chegando ao jardim.
− Fique aqui e não deixe que ninguém passe. − falei pra Trago.
Ele pegou um galho grosso do chão e se posicionou.
− Pode deixar. − falou acendendo um cachimbo na bocarra.
− Você é um trasgo estranho. − comentei antes de levar Muriel para o jardim de flores e plantas do tamanho de árvores.
− Não sei se você é muito corajoso ou muito burro, Sr. Eku. Deveria pelo menos trazer sua roupinha emo.
− Não usarei mais aquela roupa. E não, eu não sou burro, sou audacioso.
− Se fosse procuraria por Marquinhos diretamente e o mataria.
− Pra você reunir as barreiras aliadas e me dá um golpe de estado. Não. Tudo a seu tempo. Marquinhos está atrás de mim, pelo visto sozinho. Nos encontraremos mais cedo ou mais tarde. Primeiro preciso de minha barreira completa. E, como de praxe, tirar você do meu caminho.
− Você que cruza o meu sempre que pode.
− Ah, qual é? Você sempre se envolveu em atividades ilícitas, desde roubo de anéis a extorquir dinheiro de garotos que passam na sua ladeira.
− Eu não roubei aquele anel. O peguei de volta.
− Como é?
− Aquele anel pertenceu ao meu pai antes dele ser morto pelo Andarilho.
− Pelo Andarilho? Aquele cara com roupa de maluco que fica vagando pela Baixa dos Sapateiros? Por que ele mataria seu pai? – Até onde lembrava, ele era um herói.
− Ainda não descobri, mas quando o fizer, matarei ele. Você, por enquanto é treinamento e a barreira da Liberdade será uma forma de encontrá-lo e desmascarar aquele maluco assassino.
− Tocante, mas sinto lhe dizer que terei que desmanchar seus planos.
− É mesmo? − debochou quando avistamos A Cabana. − Mas você faz ideia do que há lá dentro?
− Uma vaga. Ande.



Chegamos a porta de onde eu mandei ele abrir. Lá dentro meus amigos estavam amarrados em cadeiras ao redor de uma mesa de madeira cuja cabeceira tinha o lugar ocupado por mim mesmo. Mas era um eu de nível épico. Diria que um eu divinizado. Se eu fosse Deus, seria ele.
Muriel olhou para o homem na cabeceira embasbacado e admirado ao mesmo tempo. Desconfiei que ele via a si mesmo divinizado e não minha versão.
− Marquinhos disse que você viria. Você é mesmo previsível. − falou o eu-Deus.
− E por que ele não está aqui me esperando?
− Aconselhei-o a não ficar.
− Não me diga que está trabalhando para ele também? Vai me deter com um canivete de fogo? − meu sarcasmo vindo sabe-se lá de onde causou um arrepio sinistro, não só em mim, mas em todos na sala.
− Respeito não é bem o seu forte, não é mesmo. Diria que é quase um ateu.
Ateu? É, nunca parei pra pensar nisso. Nunca fui a templo algum de deus algum, mas nunca duvidei de suas existências e aquela potência em minha frente me provava de que sim, deuses existem. O que me levou a pensar naquele momento no que faria, caso aquele grande deus se opusesse a mim. Claro, ele era um dos pouquíssimos que possuíam onipresença dividindo seu ser entre trilhões de outros iguais ao principal ocupando cada espaço vazio entre cada quark do universo. E sim, aquela era uma versão grande e embora seja uma parte era uma parte bem poderosa.
 − Um ateu deixa de existir assim que Deus mostra sua face para ele. Então não me classificaria como ateu nesse momento.
− Então me trate com respeito. − sua frase foi pontuada com o teletransporte de Muriel para o seu lado e minhas armas para a mesa ao alcance das mãos deles. É, seria difícil. − Por que não se senta?
− Prefiro ficar em pé.
Ele apontou pra mim, mas a única coisa que aconteceu com meu corpo foi uma produção um pouco maior de suor, principalmente nas mãos.
− Interessante. − ele olhou para minha mão e se deteve em um dos meus anéis com um olhar carrancudo. Sua sobrancelha esquerda arqueou significativamente. Eu fazia aquilo?
Ele se levantou:
− Você não é bem-vindo em minha Cabana.
− Solte meus amigos e eu irei embora.
− Não disse que ia negociar com você, disse para ir embora.
− Não irei − me aproximei da mesa de forma que ele não pudesse ver a espada de lâminas flamejantes negras que eu criei. − a lugar algum sem meus homens.
− Está desafiando a mim, que sou o Altíssimo?
− Perdoai-me pai, mas sim. − merda, falei em tom irônico de novo.
O eu-Deus pegou a arma de Muriel que se transformou em uma arma divina e dourada e apontou pra mim. O tiro raspou meu ombro e atingiu o de Muriel derrubando-o. Quando me virei para a porta, o atirador me jogou no chão e apontou o rifle para o eu-Deus que ainda mantinha a arma apontada na direção onde eu estava.
− Quem é você? − perguntou o templário acompanhado de mais dois monges empunhando iguais armas.
− Eu sou Verbo. − Não eu não ouvi errado. Ele disse que era “Verbo” e não “O Verbo”, como se o nome dele fosse uma classe gramatical.
Alheio a isso, lancei as chamas negra nas cordas do grupo da esquerda, lado aonde fui jogado, libertando Vinny-Dellas, Dente e Bolo que lançou seus tentáculos de fogo por debaixo da mesa libertando Leo e Poteta.
− Este homem está sob seus cuidados? − perguntou o templário desviando a arma para o chão.
− Sim. Por que quer matá-lo?
− Ele sequestrou e matou um dos nossos líderes. Somos os Templários. Agimos sobre o seu nome.
− Meu nome? − riu desdenhosamente. − Os homens e suas vãs sabedorias. Eu por acaso indiquei alguém para iniciar uma cruzada em meu nome?
Essa eu queria ver.
− Achamos que o fato de os quatro artefatos terem aparecido em quatro de nossas igrejas, fosse um sinal do senhor.
− Alguns desses artefatos nem são desse mundo.
− São do céu?
− Não, criança. Mas esse é um mistério que não pertence aos homens. − já tinha ouvido isso em algum lugar, mas me concentrei em Muriel que se arrastava para os fundos da cabana. As pernas na minha frente bloquearam minha visão.
Droga.
Um dos templários que entraram olhou para mim e não gostou nem um pouco de eu ter uma espada de fogo negro, tão pouco o anel da água que fora de Yuri.
− Você. − os outros dois se voltaram para mim.
− Este, vocês têm minha bênção para fazer o que quiser. − concluiu sumindo.
Os três miraram em mim, mas Leo jogou a pesada mesa contra eles mandando dois pra fora. O que tinha desviado foi atacado por chamas negras que lancei de minha espada consumindo seu corpo e sua alma.
Acredite, foi bizarro.
− Tomem. − joguei no meio a mochila que trouxe de Barbie-Com-Defeito-De-Fábrica.
− Seremos uma barreira? − perguntou Vinny-Dellas.
− Foi o único jeito que achei de deter Marquinhos e as barreiras. Agora vão para a casa e ajudem os outros.
− Outros? − indagou Bolo.
− Sim, trouxe reforços.
− E você? O que vai fazer? − perguntou Leo.
− Vou atrás de Muriel. Ele está ferido e não deve ir longe.
− Isso não é hora pra vingança Braço. − falou Poteta lendo minha mente.
− Não é vingança. Preciso me livrar de Muriel para que ele não avise Marquinhos. − peguei minha arma jogada no chão perto da porta e disse de forma definitiva. − Vão.
Segui para o fundo da Cabana percorrendo a trilha de sangue segurando a espada em uma mão e a arma na outra. Os outros já tinham saído e corrido para a casa. No final do casebre a porta da cozinha estava aberta e o sangue seguia na tangente. Quando olhei pelo basculante vi o famigerado líder apontando para a porta.
− Tentando uma armadilha, hein?
Não, ele estava mirando alguma coisa através da porta quando virei pra direção que a bala seguiria vi um galão de gás cheio como um obeso que acabara de sair do McDonalds.
− Son of the… − quando ouvi o som do tiro só tive tempo de criar um globo de água ao meu redor me protegendo da explosão e das chamas impetuosas.
Foi madeira e chamas pra tudo que é lado.
Desfiz o globo quando as chamas pararam de me envolver. Saí dos escombros, mas não vi mais o desgraçado. E os escombros acesos apagaram qualquer rastro que eu pudesse rastrear.
Frustrado, voltei para casa onde minha barreira já havia tomado conta da área.
− Achei que não era pra deixar ninguém passar. − falei pra Trago tirando ele dos lábios de Natália numa comemoração.
− Eles eram três, eram rápidos e tinham metralhadoras.
− E daí? Minhas ordens foram claras. − não, não foi um sermão. Eu acho.
− E agora Braço?
− Tenho que fazer uma ligação. − disquei o número que Érica me deu.
− Oi Péricles. − ela devia estar acompanhada.
− A casa de Marquinhos foi tomada. Onde ele está?
− Comigo.
− E onde você está?
− Terceiro Centro. To com mais dois… três amigos.
− Três contando com Marquinhos.
− Sim, Péricles. − fingiu irritação. − São homens, mas são apenas amigos.
− Leve-os até a encruzilhada e me avise quando chegar lá.
− Se eu te amo?
− Sim, é um bom sinal. Aguarde na linha.
− Ai Péricles, preciso te dizer isso?
Enquanto ela enrolava, eu dei as ordens:
− Paulinho, pegue o poder de Nandinho e leve Bunitinho, Xalau e Trago pra rua transversal direita da ladeira do Terceiro Centro. Nandinho vai pra rua oposta levando Marão, Pé-Duro, Humbertinho e Bolo. Dellas, você vai levar pra ladeira oposta Dente, Poteta, Paulinho e Leo. Já Pombinho vai nos levar o mais rápido possível pra ladeira do Terceiro Centro neste Pendrive. − tinha sobrado eu, papel e John. − Natália, fique aqui.
− Tudo bem Péricles, eu te amo, tá ouvindo. − era o sinal de Érica.
− Agora!
Joguei o aparelho pra Pombinho que nos coletou e nos baixou na ladeira ao mesmo tempo em que os outros grupos apareciam cercando Marquinhos, Érica, o cara do boné da Mahalo e o que detonou as torcidas.
− Procurando por mim? − perguntei a meu rival.
− Péricles, ligo pra você depois. − um plano B. Garota esperta.
− Pelo visto arranjou uma barreira em menos de 24horas. É quase um Jack Bauer.
− Isso mostra que sou melhor que você. Fui a sua casa, derrotei sua barreira e seus líderes, destruí sua Cabana e agora você está cercado. Renda-se. − lhe apontei a arma.
− Está blefando.
− Tem razão. Foi Muriel que destruiu A Cabana comigo lá dentro, mas isso não importa agora. Você não tem mais saída.
De repente eu vi. Algo que jurei impossível de ser visto por alguém. Ao fitar meus olhos, Marquinhos viu a verdade e a obstinação lado a lado. E então aconteceu. Era incrível: Marquinhos estava com medo. Pela primeira vez. E o que era inebriante, me impulsionava pra frente, despertava minha ira dos acontecimentos recentes libertando uma fera dentro de mim. Mais que um leão, um dragão.
Marquinhos estava com medo de mim.
− Proponho um duelo.
− Nada de duelos. Você perdeu. Entregue-se e penso num lugar bacana pra passar o resto da vida.
− Eu não estou sozinho, Danilo e posso derrotar todos mesmo que estivesse. Vai querer machucar sua barreira?
Atirei contra ele e, como previ, seu escudo defendeu o tiro, mas segundo Barbie-Com-Defeito-De-Fábrica, a bala possuía mais potência o que foi confirmado, pois a aura psíquica de Marquinhos rachou perigosamente.
− O quanto acha que pode aguentar.
Ele engoliu em seco. Não parecia o mesmo Marquinhos opressor e tirano de anos atrás que atormentou minha vida e a de seus amigos. Era uma Mariquinhas.
− Danilo, pela nossa amizade. Acolhi você na minha casa.
− Você me humilhou… e na casa de sua mãe, você quer dizer. − Reengatilhei. − Não vou pedi de novo.
Com sua telecinese, Marquinhos pôs os três líderes que lhe acompanhavam entre eu e ele e tentou enfrentar o grupo de Dellas. Este desenhou no ar, como se usasse um programa de design, uma metralhadora digna de CS[1] e atirou sem dó nem piedade em Marquinhos que, apesar de protegido por sua aura foi empurrado de volta pra trás.
A barreira tripla continuava entre meu 38 e as costas de Marquinhos, porém, de forma voluntária. Na verdade exatamente entre nós estava Érica que se abaixou e disse:
− Atire.
Sem titubear, disparei contra as costas desprotegidas de Marquinhos. Não pra matar, mas foi o suficiente para desbancar e derrubar toda uma arrogância e prepotência em pessoa.
Marquinhos fora derrotado.
Os outros dois líderes pensaram em atacar a garota pela traição, mas preferiram preservar a cabeça no lugar.
− Acabou. − disse virando ele com o pé. Ele gemeu quando seu ferimento bateu no chão sujo. − Eu sou o líder da Liberdade.
− Os outros não irão lhe seguir.
− Ah, irão sim. Derrotei seus líderes e, sobre eles, existe somente eu e meu vice.
− Eu tenho liderança nata, Danilo. Eles me seguirão mesmo que eu fique numa cadeira de rodas. Terá que me matar. − me desafiou, pois sabia que não era capaz.
Nem era preciso:
− Quero saber se eles vão lhe ajudar estando você na lixeira. − Vinny-Dellas tossiu e lhe cuspiu na cara uma catarrada que quase parecia um vômito. Marquinhos brilhou em tom azul, ficou translúcido e desapareceu.
Érica ficou do meu lado e me virei para os outros dois líderes. Foi estranho. Esperava que eles se rendessem de imediato, mas titubeava entre lutar ou se submeter.
− Não será tão simples. − me falou Érica.
− Use isso, por enquanto. − falou Trago.
− O que é isso?
− Um anel que me deram quando estava no interior. − o anel era dourado e se lia “O Senhor é meu Pastor”.
− Pra que eu vou usar um anel evangélico se o próprio Deus me quis morto.

− Não é evangélico. É só um disfarce. Quem usa ele pode oferecer um anel a um tipo ou raça de pessoa e você comanda esse tipo ou raça.
− Você já fez isso?
− Criei um anel grandão e usei de coleira. Comandei todos os cachorros da área.
− Por isso que toda hora que eu encontrava um cachorro, ele queria me morder, né? − falou Poteta.
Trago riu.
Peguei o anel e pus no dedo indicador.
− É provisório, viu mestre. Até você vingar Maçã.
− Sim. E como eu… − então na minha mão se formou um círculo terminando num anel robusto, mas simples.
− É melhor que seja Papel, assim ele terá ligação direta com você.
Joguei pra Papel que ao colocar o anel me deu o controle de toda a barreira da Liberdade. Me virei pros dois líderes e eles se curvaram em meu favor. Sentia onde cada membro de cada sub-barreira se encontrava. E podia controlar todos.
− Agora sim, estou pronto pra enfrentar os Templários.
− É melhor deixar pra amanhã. − me aconselhou Pombinho. − O dia foi longo.
− Pombo tem razão. − falou Xalau. − To morrendo de sono.
É… não poderei usá-los cansado. Iria querer todos no zênite de seus poderes. Amanhã seria o grande dia.




[1] Área em que torcidas organizadas como BAMOR (Bahia) e TUI (Vitória) se reúnem
[2] Embora essas garotas não façam concessão pra nenhum garoto, elas só namoram com membros de barreiras, geralmente líderes e seus vices.
[3] Não é o irmão de Philipe de “A Caneta”, mas o irmão de Bibi de “O Jegue, a Princesa e a Escada”.
[4] Em uma conversa contada na rua deles, diz-se que homem agüenta carregar outro homem nas costas.
[5] Cidade do interior.
[6] Magia utilizada pelas fadas e duendes.
[7] Counter Strike.



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