Capítulo V - Os Anéis Do Poder: A Meretriz E O Fiel



Já haviam se passado três meses após eu receber, com muito esforço e suor – devo acrescentar – o anel dos Meireles Escritores, mas eu ainda estava exultante com o fato, não sendo raro eu me pegar admirando ele em volta do meu mindinho.
– Acorda Bananinha! Ta dormindo? – disse Yuri me tirando do meu devaneio e de idiota. Todos os que ouviram riram da minha cara já não muito paciente.
Ao acabar a aula todos saíram para o corredor se prostrar no muro do primeiro andar do pavilhão A do CEAT. Eu ia falar com Vandinho (Evandro), mas Yuri se adiantou para lhe chamar para uma conversa que fez questão de enfatizar que eu estava de fora dela:
– Dê licença aí Bananinha, que eu e Vandinho queremos conversar em particular. – e após isso ele levou nosso amigo para um espaço vazio no lugar de uma sala no fim do corredor.
– Por que Yuri ta pegando tanto no meu pé, hein? – perguntei a Nokia (Renan), um colega nosso que parecia viver dentro do celular, pois não tirava os olhos dele.
– Seria porque você quer pegar a mulher dele?
Eu ia perguntar de quem ele estava falando já que Yuri não tinha namorada, mas na mesma hora Lis (Lissandra) apareceu para nos cumprimentar e logo eu percebi.
Lis não era a mais bonita da sala, mas ela atraiu dois corações ao mesmo tempo: o meu e o de Yuri. Da última vez que eu e um amigo gostamos da mesma menina, eu me senti rejeitado e até mesmo hostilizado por ele e era exatamente o que acontecia comigo e Yuri, mas ao contrário do primeiro caso, que meu amigo ficou com a tal garota, Yuri não mostrava nenhum sinal de querer ficar com Lis. Então afinal de contas, por que diabo ele me trata desse jeito?
– Não faço ideia.
– Qual é Vandinho? Vocês dois parecem namorados: toda hora Yuri te puxa prum canto pra conversar e ele nunca te disse por que ele me trata assim?
– To te dizendo: eu não sei. Ele nunca comentou nada a respeito.
– E quanto a Lis?
– O quê que tem?
– Ele falou a respeito?
– O que você já sabe: que ele gosta dela.
– E…?
– Só.
– Vandinho, eu posso ser o mais novo da classe, mas eu não sou criança.
– Se você tem tantas perguntas, por que você não vai lá falar com ele?
– Se ele parasse de me chamar de Bananinha, talvez eu tentasse.
Não tinha jeito: Vandinho sabia de alguma coisa sobre o modo estranho de Yuri, mas não quis me dizer. Com essa dúvida eu fui pra casa sem perceber muito os olhares de uma ou outra garota. É… eu tava crescendo e ficando mais aprazível aos olhares femininos, mas a única que me interessava naquele momento era a garota que meu amigo também gostava, mas parecia não querer, sabe lá Deus por quê.

Eu cheguei à minha rua, aéreo… até eu vê-la. Ela era linda: tinha cabelos curtos e negros, era branca como a neve, tinha uma tatuagem nas costas de um dragão, seus olhos eram perfeitamente redondos e negros como a noite e era prostituta.



Fora isso eu sabia que ela era argentina, se chamava Ayala, era filha de um homossexual que era amigo da cafetina que era sua chefa, mãe de meu colega Poteta (Jean).
Ah, também sabia que às vezes ela ganhava três vezes a mais com um homem do que suas colegas conseguiam a noite inteira. Também pudera, a mulher era linda do tipo que você pagaria só pra ficar olhando. Mas apesar do apelido Maçã, eu não vou comer dessa fruta. Não pagando.

A semana chegou ao final e meu único passo além foi saber que de fato Yuri não queria nada com Lis, mas se ele não tinha nenhuma intenção de namorar com ela, por que ele me trata tão mal? Eu tinha que descobrir antes das provas finais e antes de eu tentar alguma coisa com Lis, afinal eu tinha que saber em que terreno eu tava me metendo. Resolvi então pesquisar o passado de Yuri pra ver se eu tinha alguma luz e pra isso eu interroguei todos os colegas que estudaram com ele no ginásio; descobrir uma coisa interessante: ele gostou de duas garotas e pra nenhuma delas ele soltou uma indireta que fosse.
As duas garotas eram Gabriella e Maria de Fátima da sala dois e três respectivamente. E uma coisa é bem curiosa nisso tudo: ele havia me dito que Gabriella gostava dele, mas se ele também gostava dela, o que impedia de ele ficar com a menina?
Outra coisa intrigante é que Maria era linda e estava solteira e uma coisa é certa: ninguém gosta de ficar sozinho e Yuri não é do tipo feio. Então, afinal de contas o que estava acontecendo?
Parte da resposta viria da pessoa que, confesso, menos esperava: Mile (Jamile), a garota da minha sala que era afim de mim. Tudo começou quando fomos fazer um teste em dupla e eu fiz com ela.



– Você não para de olhar para a mesa de Lissandra e Yuri. Você ta com ciúmes?
– Só to querendo a resposta da terceira questão. – fingir não ligar pro comentário.
– Eles não dão pesca.
– Lis vai dar.
– Por quê? Por que você é afim dela?
Eu me virei um pouco surpreso.
– Eu sei que pareço com Yuri, mas é ele que gosta dela e não eu.
– Me engana que eu gosto. Eu sei que os dois gostam… mas parece que você tem mais chance. – disse ela com um suspiro consternado.
– Por que acha isso? – perguntei conhecendo bem a resposta.
– Porque ele é crente.
– Como é? – é… nem tão bem assim.
Ela deu um tempo fingindo analisar a prova enquanto o professor passava e quando ele estava de costas ela me explicou.
– Ele nunca vai pedir Lis em namoro porque ele é crente.
– Isso não é motivo. Namorar não é pecado.
– Mas pode levar a outro: a fornicação.
Eu fiquei um minuto calado. Aquilo de fato fazia algum sentido, mas poderia ser fruto de uma opinião e não de um fato e não adiantaria saber como ela soube daquilo, afinal ela é nova na escola como eu; eu tinha que saber de alguém que detinha o conhecimento do tal motivo que nem os antigos amigos de Yuri sabiam. E esse alguém era Vandinho.  Por azar ele já tinha acabado a prova e eu só o veria na semana seguinte. Mas se eu pude aguardar um mês inteiro de expectativa pelo meu livro, eu poderia esperar por isso também.

Na volta pra casa a chuva me pegou, mas eu não tava afim de sair correndo por ai desbandeirado. Ainda bem, porque se eu o fizesse não veria Maçã sendo atacada por dois caras no beco ao lado do Prato do Povo.  




Eu cheguei dando logo uma voadora em um dos pivetes que foi parar quase no outro lado do beco. Quando me virei pro outro ele empurrou Maçã pra cima de mim e sacou um trinta-e-oito segurando tremulamente o gatilho com o dedo indicador ornamentado por um anel rubro-prata.
– Você! – dissemos em uníssono.
– O que você tem contra mim? – perguntou ele.
– Deixe eu ver… você roubou um anel que eu estava de olho, quebrou meu antebraço quando eu estava escrevendo o livro mais importante da minha vida e agora ta tentando estuprar uma conhecida minha, fora que no dia do antebraço você ia me assaltar. Esqueci alguma coisa?
Enquanto ele refletia sobre o que eu disse o outro cara se levantou e se aproximou meio cambaleante.
– Ta certo… – ele abaixou a arma. – estamos quites agora. Eu nunca mais quero te ver de novo.
– Seria um prazer se isso não acontecesse! – disse enquanto ele e o seu comparsa desapareciam no fim do beco.
– Obrigada. – disse quando eu a soltei.
– Você está bem?
– Sim. – ela tremia. – Pode parecer, mas isso não é tão incomum.
– E o que você faz para se proteger?
– Eu deveria usar o fogo e a força do dragão em minhas costas, mas aquele outro cara anulou meu poder só com sua presença. E quanto a isso… – ela mostrou um anel prateado com uma pedra quadrada preta engastada nele pendurada numa corrente em seu pescoço. – eu tenho mais medo do que esse anel pode trazer do que daqueles caras.



    
– O que tem esse anel?
– Ele matou minha mãe. – disse ela fria.
– Eu…
– Não sinta. E mais uma vez obrigada Danilo.
– Vo-você sabe meu nome?
– Seu e de todo mundo que fica lá na casa de Nêm (a mãe de Poteta). Eu sou boa com nomes. – ela sorriu e tencionou sair do beco.
– Então… deixe que eu te acompanhe.
– Gostaria mesmo de andar na minha companhia?
– Sabe sobre aquela coisa de que quando você salva uma vida ela lhe pertence?
Ela riu.
– Espero que não pense que eu vou transar com você depois disso. – disse me deixando vermelho.
– Isso nem passou pela minha cabeça.
Andamos até a entrada do Duque de Caxias, calados até que de repente me vi perguntando:
– Por que você faz isso? Quero dizer… por que vende seu corpo? – achei que ela ficaria magoada ou chateada, mas nem constrangida ficou.
– Preciso pagar minha faculdade. – disse simplesmente. – Meu pai é pobre e como minha mãe morreu esse foi o único jeito.
– E você gosta do que faz?
– Você acaba se acostumando. E Nêm sempre me arranja os mais educados e ricos.
“É difícil imaginar algum rico entrando naquela casa pequena.” Pensei, mas nada disse.
– Que bom que você não é como os outros. – disse depois de um tempo. – Geralmente eles me olham ou com nojo ou apenas como se eu fosse um objeto. Mas você me olha como pessoa.
– É como eu te vejo.
Quando chegamos à porta de Nêm a própria perguntou:
– Cliente novo?!
– Não. Só um amigo. – respondeu Maçã.

O fim de semana foi meio chato: tive que estudar para as provas finais que se aproximavam, mas não sacava nada de física, literatura ou gramática. O que eu gosto é de educação sexual e eu odeio química!
Resolvi sair um pouco pra respirar. Fui à casa da avó de Pombinho que é na entrada da rua, mas ele tinha ido à casa de um amigo. Na volta eu encontrei Maçã. Nossos olhos se encontraram por menos de dois segundos, pois um míssil entrou no primeiro andar da casa de Nêm explodindo o andar jogando pedra e poeira pra tudo que era lado.

  
Após me abaixar, minha primeira reação foi ir de encontro a Maçã pra ver se ela estava bem.
Quando a confusão tava menor, já que os bombeiros haviam chegado e estavam apagando o fogo, eu me sentei ao lado dela em uma das cadeiras que geralmente ficava do lado de fora em frente à casa.
– Você está bem?
– Acho que sim. – ela tava meio chorosa.
– Você se feriu… ta doendo em algum lugar?
Após balançar a cabeça ela disse:
– Todas as minhas amigas… estavam lá dentro.
Imediatamente veio na minha cabeça que ela também poderia ta lá dentro e morta agora. Em seguida eu pensava em quem poderia ter feito isso quando Nêm já gritava desesperada que foram eles, foram eles, foram eles. Aproveitei que Poteta se aproximou e perguntei:
– De quem sua mãe ta falando Poteta?
– De um grupo aí chamado Templários.
– Os Templários?! – Perguntou Maçã.
– Eles não lutaram nas Cruzadas há muitos séculos atrás? – perguntei.
– Não. Quer dizer, também, mas os de hoje são um grupo extremamente religioso que é contra as prostitutas, os drogados, os ladrões, os homossexuais, enfim, toda a “escória” da sociedade. – respondeu a garota.
– São como uma espécie de justiceiros?
– Quase isso. Eles querem purificar a Terra tirando o pecado dela.
– E você sabia disso?
– Sim, claro.
– Como você se permitiu correr um risco desses?
– Eu tenho que pagar minha faculdade, Danilo.
Eu vi que ela tava certa, mas tinha que ter outro jeito.
– Eu recebo todo mês uma mesada que vale como pensão de meu pai. Como eu só gasto com besteira eu poderia dá-lo a você. É um bom dinheiro.
– Não Danilo, obrigada.
– Por que não? – perguntei já ficando irritado.
– Eu não acho justo você me dar sua mesada. Minha faculdade é problema meu e eu tenho que resolvê-lo, não você.
– Mas eu insisto. Eu não quero que você vire alvo desses fanáticos.
– Eu não vou deixar de ganhar meu dinheiro honestamente por causa de uns viados mal resolvidos que ficam por ai atazanando os outros.
– Eles não estão atazanando as pessoas, eles estão matando elas. E você é um alvo. Tem que largar essa profissão agora!
– Danilo, você não é meu pai nem meu namorado, portanto deixe que eu cuido da minha vida e você da sua! – após dizer isso ela se levantou e foi consolar Nêm.
– Não se preocupe: ela te ama. – disse Poteta do nada.
– É. Só se… for. – ao olhar para a saída da rua infestada de curiosos eu vi o cara que tentou estuprar Maçã.
Ele olhava aquela cena com certo interesse que não me escapou. “O quê que ele tava fazendo aqui?”. Após me ver ele se retirou rápido. Tentei alcançá-lo, mas a multidão me retardou e eu o perdi de vista.

Dessa vez era o contrário: eu ia pro colégio pensando nos problemas da rua e não o oposto. Mas isso foi rápido, pois eu vi Vandinho conversando com uma menina da sala três (a mesma de Maria de Fátima) e logo em seguida Yuri veio lhe falar uma coisa que o fez deixá-la lá sozinha, e antes que eu me aproximasse Danilo, Leandro e Guilherme, os três da sala dois, chegaram até ela. O último deu-lhe um beijo na boca e eu percebi: Vandinho gostava da garota, mas ela era namorada de um dos caras do trio DeGoLa: o pior e mais perigoso trio do Anísio. E isso era ótimo! Se eu conseguisse armar Vandinho com aquela garota ele poderia me retribuir me dizendo por que Yuri não quer dar uns pegas em Lis.
Indo pra sala eu lembrei de que havia um trio perigoso assim na época que meu irmão estudou lá. Eles eram a Tríade do Mal (é, naquela época eles não tinham muita criatividade). Três repetentes do terceiro ano que comia (ou estuprava) todas as meninas dos anos anteriores e controlava os presidentes do grêmio estudantil. Quando meu irmão entrou no colégio ele queria entrar no grêmio justamente pra acabar com a festa deles, mas os caras eram fortes, poderosos e tinha muitos aliados incluindo entre os professores. Então a solução para tirá-los do poder foi simples: primeiro os resultados foram sabotados para passá-los de ano o que seria impossível de acontecer de forma normal. Nas férias ele se juntou com as mentes mais brilhantes do colégio (os CDF’s) para cortar os tentáculos remanescentes.
Dos alunos foi fácil: da mesma maneira que resultados foram alterados para passar a Tríade, cartas de expulsões foram expedidas para os comparsas menos influentes e poderosos. Ao mesmo tempo, professores foram acusados de terem estuprado meninas ou forçá-las a transar com eles em troca da aprovação. Apesar de alguns professores realmente terem feito isso com algumas meninas, todas as que foram violentadas, por eles ou pelo trio, acusaram os mestres.
Resultado: em dois anos o Anísio Teixeira foi limpo e reorganizado. Mas eu não tinha dois anos, eu tinha duas semanas e olhe lá. A priori eu tinha que investigá-los assim como eu fiz com Yuri. Descobri coisas interessantes: o líder (e meu xará) Danilo, namorava a tal Gabriella que gostou de Yuri e foi gostada por ele. O cara era forte feito um touro e burro feito uma porta.
O tal do Guilherme vivia vestindo uma calça e/ou uma jaqueta do exército. Suas pernas eram tão perigosas quanto os punhos de Danilo que, segundo uma suspeita pessoal, era chifrado pelo colega, pois Gabriella se amarrava em um uniforme bélico.
Por último tinha Leandro que por incrível que pareça era da mesma religião que Yuri. O cara não tinha nenhum poder específico fora sua massa encefálica extremamente desenvolvida (o cara era quase um gênio). E ele também gostava de Gabriella.
Pelo visto ela seria o alicerce a ser atingido para demolir os DeGoLa.
– Evandro eu posso falar com você?
– Peraí Bananinha, que eu vou…
– Agora eu vou falar com ele Yuri! – disse firme, quase ríspido. – Seja educado e espere. – com esse “cala-boca” eu puxei Vandinho prum canto e lhe fiz minha proposta.
– E quem lhe disse que eu sou afim dela?
– Eu já lhe disse Vandinho que eu não sou criança.
– É… você se parece mais com Yuri do quê pensa.
– Vamos deixar Yuri fora disso. Pelo menos por enquanto.
– É. Eu to afim de Sara sim. Mas como você já deve ter percebido, ela namora com o G dos DeGoLa: o soldadinho de chumbo.
– Se quiser eu te armo com ela.
– Só se você quiser morrer e me levar junto.
– Relaxe. Eles não são tão perigosos assim. Apesar do nome eles nunca mataram ninguém.
– Não quero ser o primeiro nem o segundo.
– Confie em mim Vandinho. Eu vou botar essa menina na sua mão. Mas não quero mentir pra você, isso vai lhe custar uma informação. E acho que você sabe qual é?
– Rapaz, esqueça Yuri. Parece que você ta afim dele e não de Lis.
– Não Evandro, é ele que ta afim dela e não faz nada e ainda por cima desconta sua inércia em cima de mim.
– Então? Você já tem o fato, o que mais precisa?
– Do motivo. Ele não ta fazendo isso à toa. Tem que ter uma explicação e se você não quiser me dizer por bem, arriscarei nossas vidas pra saber.
Houve uma breve pausa.
– Você faria isso mesmo?
– Eu não posso me arriscar a ter alguma coisa com Lis ganhando de Yuri por W.O. Isso não seria justo.
Ele meditou um pouco então aceitou.
– Tudo bem. Quero ver até onde você pode ir. Se você conseguir tirar os “ReBoLa” do meu caminho eu lhe conto até quando foi que eu dei uns pega em Lis.
– Hein?
Ele se acabou na risada.
– Brincadeira.
O plano era tão simples quanto o do meu irmão. Primeiro eu lancei a semente do mal espalhando o boato de que Gabriella de fato pegava Guilherme nas entocas. Contei para Maílson (amigo de Leandro que estudava na minha sala) e na congregação que Yuri e Leandro frequentavam. Isso, é claro, chegou aos ouvidos do apaixonado Leandro que infelizmente resolveu averiguar antes de comentar qualquer coisa com o chefinho. Para isso ele mandou que Maxel investigasse o caso, então eu tinha que dar-lhe um empurrãozinho em seu trabalho.
Diante disso criei um personagem chamado Eku (de equação que se define por: num lado está à incógnita [minha identidade], do outro a resposta [que é o que eu vou dar a Maxel]).
Pedi para que meu pai criasse, junto com meu irmão, um traje que me auxiliasse na minha investigação conjugal. A roupa era toda preta composta por um boné, um óculos escuro, uma bandana pra botar no rosto, uma camisa, um capote de zíper e bolso, um par de luvas de caratê, uma calça jeans e tênis.
– Você parece que está de luto. – comentou meu pai.
– O senhor não quer que eu use um collant azul e vermelho né?
– Não. – disse rindo.

Para experimentar meu traje eu fui atrás do ladrãozinho estuprador. Ele estava na ladeira do Terceiro Centro fazendo com um estudante do Kennedy o mesmo que fez comigo: pedindo dez centavos. A cena era irritantemente igual (exceto pela cara de boboca do garoto que eu acho que eu não tinha).
– Você sobe de soqueira para trinta-e-oito[1] e continua o mesmo ladrãozinho de sempre não é?
– Quem é você? – o disfarce funcionava: ele não me reconheceu.
– Isso não importa. O que importa é o que você estava fazendo na Rua Bela Vista do Bonfim no domingo. É um pouco longe daqui, não?
– Isso não é da sua conta. Dê o fora.
Ao dizer isso seus capangas tiraram canivetes e me cercaram.
– Quer que eu bata em seus guarda-costas antes de me responder?
Eles me olharam com raiva e partiram pra cima de mim. O primeiro quebrou sua faca em meu peito impenetrável; dei um soco que quebrou seu nariz. No segundo eu dei uma giratória no rosto fazendo-o cambalear. O terceiro tentou contra meu rosto, mas eu desviei deslocando seu ombro com um soco e joguei-o contra o quarto, com um chute, que caiu com ele. O quinto tentou uma sequência de golpes que foram perfeitamente defendidas inclusive uma bola de energia elétrica que parou na luva direita; com a mão esquerda eu soltei um poder de propulsão que o fez atingir o quarto que tinha acabado de se levantar, mas foi ao chão de novo. O segundo criou um tremor no chão me jogando contra um gol às minhas costas, e antes que seu canivete me acertasse eu pulei pro lado, girei e larguei outra propulsão só que com as duas mãos; ele voou até a parede do lado oposto da rua.
Quando eu me virei pro pivete ele disparou contra mim. Por sorte e reflexo eu criei um campo magnético que parou as balas a centímetros de mim.
– Se você não quiser que essas balas voltem é melhor me responder.
Ele analisou a situação então abaixou o revolver.
– O.k.
Ao soltar as balas que caíram no chão me virei pro garoto que olhava aquilo tudo meio atônito:
– Pode ir. Ele não vai te pedir mais nada.
– Ele não estava. – disse o garoto. – Era um código de reconhecimento.
– Como é?
– Ele estava fazendo uma pesquisa pra mim, então eu precisava saber se era ele realmente. A propósito, qual é o resto da senha?
– É pro buzu.
“Que ridículo” pensei.
– Você não me respondeu: o que você estava fazendo na Rua Bela Vista do Bonfim no domingo à noite?
– Já disse que isso não é da sua conta.
– Suponho que você tenha mais capangas pra eu bater não é?
– Senhores, por favor. Quem é você?
– Eu sou Eku.
– Você é herói? – perguntou o pivete alisando o anel de pedra vermelha.
– Isso importa?
– Na situação que nos encontramos sim. Eu não gosto de heróis. – eu nada respondi, apesar da minha impaciência. – eu estava averiguando aquele atentado.
– Por quê?
– Os culpados podem ser os mesmos que mataram meu líder achando que acabaria com o grupo: Os Templários.
– O que sabe sobre eles?
– É pra isso que ele está aqui. – apontou pro cara do Kennedy.
– Tem um lugar em que podemos conversar que não seja na rua?
– Vamos pro nosso QG.
– E vai levá-lo?
– Ele não deve ser tão bom assim com quinze quanto foi com cinco.
“Eu não duvidaria” pensei.
Estava matando dois coelhos com uma cajadada só. Testei a roupa e vou descobrir sobre o grupo que tentou matar Maçã.
O tal QG do pivete que se chamava Muriel era um porão sem portas. A passagem se fazia por paredes movediças.
– E então João? – perguntou ele pro estudante.
– O grupo tem divisões no mundo todo, mas surgiu aqui em Salvador. Pelos ataques eu tracei uma espécie de rota e, devido às minhas aulas de PEI[2], eu descobri um desenho: uma cruz.
– Não é muito original não é? – disse.
– É aí que ta. – disse João. – assim como a barba de Deus e o tridente do Diabo são imagens distorcidas de outras religiões extintas, a cruz era um símbolo de uma seita: a dos Elementais. Cada lado simbolizava um elemento da natureza: água, fogo, ar e terra dispostos em pontas perfeitamente equidistantes.
– Isso não é só uma coincidência é? – perguntou Muriel.
– Não. Os líderes dos novos Templários têm quatro objetos que representam um elemento cada. O do ar é um broche, o da terra um bracelete, o do fogo uma corrente e o da água é um anel.
Instintivamente eu olhei para Muriel e vi sua expressão disfarçada de interesse.
– Então temos que encontrar esses quatro e acabar com os nossos problemas.
– Não é tão simples. Ninguém sabe de quem parte as ordens. Ninguém conhece nenhum dos Templários. Eles são furtivos, vivem nas sombras. É impossível achá-los.
– Um buraco negro suga até a luz se tornando assim invisíveis, mas mesmo assim eles podem ser encontrados. Então não me diga que não podemos achar esses caras.
Fiquei impressionado por ele saber de buracos negros, mas nada comentei a respeito.
– Ele tem razão. Deve haver alguma maneira de encontrá-los.
O garoto coçou a testa antes de dizer.
– Tá! Tá bom. Eu vou achá-los pra vocês.
Após trocarmos contatos eu fui pra casa.

– E aí? – perguntou meu irmão.
– Os ligamentos de aço da roupa funcionaram bem, as pilhas também. Acho que dá pro gasto.
– Você só testou isso.
– Relaxe. Ela vai me servir.
E serviu bem. Não levou dois dias para eu ver com a visão de raios-X dos óculos mostrarem Gabriella nuns amassos com Guilherme.
“Bingo”. No dia seguinte Maxel tinha entregado a prova, que eu dei a ele, para Leandro que por sua vez contou para Danilo. A ordem dele foi bem simples:
– Degole ele.
– O… que?
– Agora! E deixe que de Gabriella eu cuido.
É verdade que os planos fugiram um pouco do que eu queria, mas isso era facilmente contornável:
– Que dilema não?
– Quem é você? – perguntou ao ver Eku em cima de um muro nas escadas que davam para sua rua.
– Eu me chamo Eku. E sei bem pelo quê você está passando. Seu líder mandou você matar seu colega enquanto ele vai fazer sei lá o que com a mulher que você ama não é?
– Como sabe disso?
– Não importa. O que importa é que eu posso ajudá-lo. Posso proteger seu amor enquanto você se livra de Guilherme.
– Isso não me ajuda muito.
– Dê isso pra ele. – joguei para Leandro um frasco com um líquido viscoso.
– O que é isso?
– Uma passagem para o purgatório. Melhor que o inferno e sem a cabeça, eu acho.
– Por que devo confiar em você?
– Porque te ajudar me ajuda. E a um amigo meu. Agora vá; livre-se daquele encosto.

Como prometido, naquele dia mesmo eu fui salvar a garota que tantas vezes salvou minha vida, mesmo que sem saber.
Danilo havia levado ela pro Dique do Tororó, e quando eles estavam em um lado deserto, ele mostrou suas garras:
– Sua puta, como você foi capaz de me trair com aquele sacana do Guilherme?! – ele havia suspendido ela pelo pescoço.
– Largue ela Danilo! – ordenei atrás dele.
– Se eu fosse você ficaria de fora disso.
– Prefere bater em uma mulher do que em um homem?
Ele largou o pescoço da garota já roxa e se virou pra mim.
– Eu não bato em homem. Eu mato.




Rapidamente ele se jogou contra mim como uma avalanche. Eu tentei voar, mas ele puxou meus pés e me socou quando eu voltei ao chão me jogando contra um ônibus que passava na hora quase derrubando-o. O ônibus parou para ele me dar outro soco que me fez atravessar o veículo. Quando eu olhei pra cima, do chão, vi um pedregulho branco caindo em cima de mim. Ele fez um buraco no chão. Eu me virei e soltei uma propulsão que ele parou com uma mão e com a outra bateu no chão criando um tremor que me derrubou. Quando eu estava de volta ao chão ele juntou os punhos e desceu com toda força ao asfalto que se despedaçou. Eu tinha desviado, mas fui lançado no ar pelo impacto e lá me tornei invisível e flutuei. Juntei as mãos e criei um globo de energia e lancei contra ele, porém o sacana devolveu com um murro. Eu fui parar em outro ônibus que parou junto com outros carros. Enquanto eu levantava no corredor do ônibus cheio do vidro do para-brisa que acabara de atravessar, ele arrancava a porta dianteira do buzu e se dirigia até mim. Pensando rápido eu disse:
– Levantem os pés! – e ao fazerem isso desci uma descarga elétrica por toda a parte metálica do ônibus eletrocutando o cara.
Minha roupa ficou descarregada, mas ele veio à lona.
– Alguém se machucou?
Após as negativas do pessoal eu fui até Gabriella.
– Você está bem?
– To. E você? – confirmei com a cabeça. – Eu não sei no que deu nele.
– Ele descobriu você e Guilherme. – falei com um pesar na voz, pois quase ela morreu por minha causa. – Deve deixá-lo.
– Deu pra perceber essa necessidade.

Eu voltei pra casa, satisfeito: meu plano tinha dado certo e no dia seguinte eu ia saber o tal misterioso segredo de Yuri. Eu já tava na entrada da rua quando eu vi Nêm voando porta afora. De dentro da casa saiu um homem vestido com um hábito branco com capuz e apontando uma arma para a mulher deitada no chão.
     – Chegou seu fim cafetina.

Eu corri para ajudá-la, no entanto uma labareda de fogo saiu da porta. Eu sabia que era Maçã. A roupa do homem não queimou e pra piorar ele se virou para a moça, mas ai eu cheguei a tempo de bater em seu braço derrubando a arma e em seu rosto. Ele deu uma giratória em meu peito e eu bati no poste. Maçã partiu pra cima dele e ele desviou chutando sua barriga. A roupa desativada estava na mochila, mas eu fui pra cima dele do mesmo jeito, contudo, o homem estendeu a mão e me paralisou. Era como se cada fluido em meu corpo estivesse sob seu controle. Com a outra mão ele criou uma corrente de gelo envolta de Ayala e a levou segurando pela haste. Só quando eu o perdi de vista que eu tive controle do meu corpo.
– Nêm, você está bem? – não fui eu que perguntei e sim Poteta que apareceu do nada como se tivesse pressentido.
– Eles levaram meu ganha pão! – falou chorosa.
É ela estava bem.

No dia seguinte eu fui falar com Vandinho, mas o desgraçado do Yuri o levou para uma de suas conversas secretas. Mas eu aprendi a ser paciente e sabia que de hoje não passava.
– Oi. – era Gabriella.
– Oi.
– Eu queria lhe agradecer por ontem. Eu me esqueci de fazer isso de tão chocada que eu estava.
Chocado ficou eu quando ela me veio dizer isso.
– Me desculpe, mas… do quê que você ta falando?
– Qual é? Eu sou uma bruxa e sei que era você naquele disfarce; – ela se aproximou e falou baixo: – Sr. Eku. Você chegou na hora certa. Eu nem sei como te agradecer.
– Você pode fazer duas coisas: primeiro não se meta mais com trios perigosos. Segundo: cuidado com fetiches; eles podem te matar.
– Ta registrado. – disse piscando um olho.

O intervalo já tinha acabado e Yuri ainda não tinha se desgrudado de Evandro. Parecia que ele tava adivinhando, mas por sorte, Sara, a garota de que Vandinho gostava chegou pra falar com ele, então Yuri se afastou. Só precisava agora ficar esperando, o que não ocorreu por muito tempo, pois a terceira aula já ia começar. Aproveitei que era de química (o professor só ia entregar as provas feitas em dupla e Mile iria pegar a minha e a dela) para chamar Vandinho para um lugar reservado.
– Promessa é dívida Vandinho! Você ta me devendo.
– Ainda nem acredito que você conseguiu mesmo. Só Leandro veio hoje.
– É eu sei, mas não enrola; fala logo.
– Ta bem. O que você quer saber?
– Primeiro por que Yuri não quis ficar nem com Maria nem com Gabriella.
– Maria por que era de religião católica. Dá pra perceber pelo nome não é?
– Mas isso não é problema. Meu tio é mulçumano e a mulher dele da mesma religião que Yuri.
– Mas não da mesma cabeça. Yuri acha que sincretismo religioso só rola com religiões falsas. E quanto a Gabriella, o caso era mais grave porque ela é bruxa; segundo ele, filha do demo.
– To ligado. – pelo visto Yuri era muito preconceituoso. – Mas o que tem Lis de errado? Até onde eu saiba, ela não tem religião fixa, nem é bruxa, nem vampira, nem nada disso.
– Nesse caso o problema não é ela, é ele.
Fiz um esforço para não cortar a narrativa de Vandinho, porém sua pausa me inclinou a fazê-lo:
– O quê que tem ele? Ele não gosta dela?
– Até gosta, mas o caso é que ele ta apaixonado por outra mulher.
– Sério?
– To te dizendo.
– Mas se ele não gosta de Lis, por que ele sempre vem pra cima de mim com quatro pedras na mão?
– Isso não tem nada a ver com ela e sim comigo.
– Com você? – eu já tava achando aquela história meio estranha.
– Pelo que eu pude perceber ele ta tentando me converter, mas ele acha que você atrapalha o trabalho dele com suas ideias liberais demais, como diz ele.
– As ideias dele são atrasadas e eu que sou liberal? – eu ri de desgosto. – Yuri só pode ta ficando maluco; até porque eu nem tenho mais chance de conversar assim com você e mesmo assim ele me dá patada.
– Ele ta descontando a raiva que sente de si mesmo.
– Peraí Vandinho. Agora eu não to entendo nada. Você disse que ele me trata mal por eu te “desviar” ou por sentir raiva dele próprio?
– Os dois.
– Isso é um absurdo! O que eu tenho a ver com os problemas dele?!
– Você ficou com a namorada dele enquanto ele não pode, pois acha errado.
– Mas eu não peguei Lis!
– Eu não to falando de Lis. – ao dizer isso Vandinho me fez pensar.
Por já ter ouvido um comentário parecido de eu ter pegado a namorada de Yuri feito por Renan, eu não lembrei que Yuri não gosta de Lissandra e sim de outra garota.
– Peraí Evandro. Eu nem sei quem é essa garota. Ela estuda aqui?
– Não. Ela também mora na liberdade. Seu nome é Ayala.
Por alguns segundos eu fiquei na dúvida se ele se referia a mesma Ayala que eu conhecia ou se era uma homônima, o que era meio difícil e coincidente de mais.
– Como é essa Ayala?
– Eu não sei, mas o que Yuri me disse é que ela é prostituta.
Essa não! Um puritano como Yuri tava afim de uma prostituta e achava que eu tinha ficado com ela.
Invejoso!
– Mas eu nunca tive nada com ela. A gente só se falou umas duas vezes. – e poderão ser as últimas se eu não encontrá-la a tempo.
– Ele disse que te viu sair de um beco com ela num dia desses aí.
– Ela tava sendo estuprada. Eu só a salvei. Não houve nada entre a gente.
– Isso você explica pra ele. Mas alguma dúvida?
– Como foi que eles se conheceram?
Pela cara de Evandro essa era a pergunta que ele temia ouvir…
– Danilo, eu sei que a gente fez um acordo, mas eu não devo dizer a resposta dessa pergunta.
O que só aguçou minha curiosidade mais ainda.
– Trato é trato Evandro.
– Eu fiz uma promessa para Yuri…
– E para mim também. Vamos! Nem se eu quisesse eu iria contar que sei alguma coisa pra Yuri.
– Sabe. Eu preferia não ter feito acordo nenhum porque eu sabia que teria que contar alguma coisa que não podia.
– Evandro se não me contar, dizer a Yuri o que eu sei seria a menor coisa que eu faria contra você.
– Acha que eu tenho medo de você?
– Os DeGoLa também não tinham. Sobretudo, Danilo que me esmurrou até eu quase virar patê. Anda logo, conta de uma vez.
– O.k. – ele deu um longo suspiro até eu quase interpelá-lo de novo. – Ele a conheceu investigando o bordel em que ela trabalha.
– Por que Yuri iria investigar um bordel?
– Pra saber seus horários… – eu o olhei com uma expressão atônita. – e depois atacá-lo com um míssil.
– O quê?!
– Yuri é líder de uma organização, Danilo, chamada de Templários. Ele iria matar todas as prostitutas do brega, mas por se apaixonar por ela, ele a poupou. E hoje ele me disse que levou ela para uma purificação. Para ela renascer em…
Eu não pude ouvir mais nada. Todos os meus problemas eram um só e a única solução era acabar com o cara que me odiava, mas que apesar de tudo eu ainda o considerava um amigo. Eu tinha que fazê-lo parar. Eu tinha que resgatar Ayala.
Corri até minha sala, mas foi tarde demais: Muriel e sua gangue já estavam dentro do colégio se dirigindo a ela.
– O que faz aqui?
– Acredite. Se eu soubesse que você estudava aqui eu nem entrava.
– Muriel, eu sou o Eku. O que descobriu?
– Que terrível surpresa! Então, com medo de me enfrentar você criou um heroizinho pra ter mais coragem? – ele continuou andando.
Eu parei na frente dele no primeiro degrau das escadas que davam ao primeiro andar do pavilhão A.
– O que veio fazer aqui?
Ele sorriu desdenhosamente.
– João encontrou um dos líderes. Parece que ele deu um vacilo e se expôs, mas que o necessário, então eu tô aqui.
– Deve deixá-lo comigo.
– Só porque você derrubou cinco de meus colegas acha que é tão forte assim?
– Eu o conheço, posso dissuadi-lo.
– Eu não vou esperar que ele faça seu sangue ferver e depois se mande como uma fumaça de vapor. Eu vou atacá-lo agora.
– Eu não vou deixar. – disse firme sem sair do lugar.
Ele riu, depois deu uma giratória, porém eu me abaixei e dei um chute em seu estômago fazendo-o recuar. Ao fazer isso ele deixou espaço para uma garota de soqueira atingir o ar várias vezes até eu acertar sua mão tirando seu objeto de ferro e depois lhe dar uma joelhada no rosto.
– Pare essa. – disse Muriel quando a garota caiu no chão deixando sua mira livre para me acertar com uma bala de vidro.



Um filete de sangue jorrou do meu peito direito caindo no chão dois segundos antes de mim. Muriel e sua equipe passaram por mim enquanto eu sangrava e ouvia o grito de Gabriella:
– Danilo! Você está bem? – ela não estava sozinha. Com ela vinha Leandro que me virou de costas.
 A dor era tanta que eu mal pude ver a garota colocar as mãos em meu peito desintegrando os fragmentos de vidro curando-o em seguida.
– Ei cara, você ta legal? – perguntou Leandro.
– A-acho que sim. – disse ainda um pouco atordoado.
Do andar superior eu ouvia o som de guerra.
– Eu preciso detê-los.
– Não! – disse Gabriella veemente. – Eles são muitos e você está sem sua roupa.
– Que roupa? – perguntou Leandro desconfiando de algo.
– Eles não podem matar Yuri. Eu tenho que detê-los.
– O que eles querem com Yuri? – perguntou ela.
– Não posso dizer, mas ele corre perigo. – os dois se entreolharam.
– Tome conta dele, Gabriella. Eu vou ajudar Yuri. – ao dizer isso um capanga foi arremessado do corredor do andar superior por uma breve cachoeira.
Eu fui atrás dele.
– Danilo, não!
– Eu não posso ficar aqui sem fazer nada!
– Você acabou de levar um tiro e estar sem sua roupa. Como pretende ajudar?
Ela tinha razão. Entre um tiro, uma onda e uma rajada de poder eu liguei para meu pai.
– Meu pai? Sou eu, o senhor já consertou a roupa? … Posso passar ai pra buscar? … O.k. To passando ai agora. … Tchau.
– Aonde você vai?
– Vou pegar a roupa na mão de meu pai.
– Quer uma carona? – ela apontou a varinha pro corredor e segundos depois uma vassoura veio voando. – Senta aí. – pediu ela subindo no objeto que planava.
– Tudo bem.

Eu passei até rápido na casa de meu pai, mas quando eu voltei vi dez capangas no chão e Leandro dentro de uma armadura branca e preta semidestruída.
– Leandro! – Gabriela correu até ele. – Você está bem?
– Tô, mas eles levaram Yuri. – o corredor estava quase todo destruído, mas estava se refazendo automaticamente.
– E você sabe pra onde?
– Coloquei um… ai… radar neles. Aqui está. – ele me passou um aparelho circular cinza com um GPS apontando um sinal.
– Cuide dele Gabriella. – e antes que ela me dissesse qualquer coisa eu já tinha ido embora.

O sinal indicava outro QG de uma barreira em Brotas. Como o bairro era grande imaginei que a gangue também fosse, mas eu não poderia deixar que matassem Yuri. Mesmo que ele tivesse matado muitas pessoas, ele deveria ser julgado e, além disso, tinha que dar o paradeiro de Maçã.
O QG era embaixo de uma garagem e bem organizado. Eu podia ficar invisível, mas não podia atravessar paredes, então tinha que fazer do jeito difícil: derrubar o teto.
Quando parte do teto desabou, eu vi várias rajadas de cores e potências diferentes indo para todos os lugares. Achei, então, que essa era uma boa distração, mais não uma boa entrada. Em seguida localizei a porta. Por sorte ela não era dimensional como a de algumas gangues em bairros cem por cento nobres.
Ao entrar eu reconheci quatro rostos: o de Muriel, a de sua vice-líder (que tinha o nariz quebrado), a de Yuri preso em uma corrente eletrificada e a de Raimundo, filho da minha melhor professora e da coordenadora do Kennedy, onde eu estudei.
Meu primeiro pensamento foi soltar Yuri, mas pensei melhor, porque ao mesmo tempo em que ele podia me ajudar, ele iria fugir com seu magnífico poder de mago das águas.

No entanto, me surpreendi ao não ver o anel em seu dedo tão gritante, mas que eu nunca tinha prestado a devida atenção nele. O anel estava com Muriel, e enfrentá-lo com a ajuda de mais de trinta capangas não seria nada legal.
Disparei um poder de propulsão que agora estava mais forte devido aos ajustes de meu pai que jogou Muriel contra uma pilastra. Quando um ruivo tinha conseguido me enxergar eu já estava atrás de Raimundo com uma lâmina que sai da parte inferior do meu casaco para o pescoço dele.


– Abaixem as armas! – gritei como se isso me deixasse mais seguro.
Não precisei pedir de novo para que todos largassem os canivetes, mas não ouvi nenhuma soqueira caindo no chão. Isso era um mau sinal.
– Raimundo, sou eu: Danilo.
– Eu conheço muitos Danilos.
– E eu conheço sua mã… – antes que eu completasse a frase um soco estralou uma costela minha.
Eu caí no chão e um braço envolveu meu pescoço.
– O que você disse? – ele tinha ouvido… isso era um bom sinal, mas antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, eu ouvi um som de tiro.
Meus olhos atônitos vagaram de Muriel com a arma em punho levantado e o braço de Raimundo abrindo a mão e deixando cair uma bala.
– Sem tiros por enquanto.
O filho de Rosa era bom. Pegou a bala de costas para o atirador e sem olhar. Suponho.
– Você disse que conhece minha mãe?
– Sim. Rosa Tereza Saback Leite.
– Tire a máscara dele.
Em menos de dez segundos eu estava sem boné, óculos e bandana. Mas também fui solto:
– Ah! Então é você! Pode soltá-lo.
Eu vi que Muriel pretendia argumentar, mas se algo saísse contra seus planos ele tinha uma segunda opção entre os dedos.
– O que faz aqui e por que invadiu meu Quartel General?
– Por que vocês não podem matar aquele homem. Ele sabe o paradeiro da última prostituta que pegou.
– Isso atrasa um pouco as coisas.
– Não é certo matá-lo. Ele deve ser julgado.
– Você parece minha mãe falando.
– Deveria ouvir ela de vez em quando.
– Aquele homem matou mais de quarenta pessoas junto com seu bando de fanáticos e quer que eu o deixe vivo?
– Danilo é amigo do prisioneiro. – disse Muriel. – tentou me impedir no colégio dos dois e agora tentou fazer o mesmo aqui. Não dê ouvido a ele.
– Isso é verdade? – perguntou antes que eu também pudesse acusar o pivete.
– Não é por isso que o quero vivo. É errado.
– Ele é perigoso demais pra continuar vivo.
– Me custou doze homens. – ele devia ta falando de outros dois que foram arremessados para longe no CEAT.
– Tenho que matar pelo menos os quatro principais.
– E o que vão fazer com os amuletos?
– Enterrá-los junto.
– Muriel concorda com isso? – perguntei olhando o cara. – Ele já se apossou do anel de Yuri não foi?
Automaticamente todos se viraram pra ele, exceto seus comparsas.
– Um pequeno pagamento pelo que ele me fez passar.
– Mas se ele já tem o anel, pra quê matá-lo.
– Você não disse que ficou com o anel do prisioneiro. – comentou Raimundo.
– Um pequeno detalhe. Isso importa muito? – perguntou com a cara mais cínica e deslavada.
– Não vamos ficar com nada. Os quatro devem ser enterrados com seus amuletos.
– Discordo! Eu o capturei, eu decido o que fazer com ele.
– Você está no meu QG e em menor número. Eu decido.
Pelo visto o impasse não ia ficar só na conversa, então eu teria que saber o que fazer assim que os poderes fossem disparados.
– Você acha mesmo que número vai contar com isso?! – ele mostrou o anel de pedra redonda azul engastada num aro de prata.



– Você é muito confiante Muriel, mas você vai pagar por isso.
– É o que veremos.
Com o poder do anel, Muriel controlou o sangue de Raimundo e o jogou contra seu vice-líder. Eu saquei duas armas de balas elétricas que meu pai havia colocado na roupa e disparei as duas ao mesmo tempo. A primeira parou em um escudo de gelo na frente de Muriel e a segunda que ia até a corrente que prendia o prisioneiro de Raimundo foi atingida pela bala do mesmo.
– Droga! – tive que correr para a prisão de Yuri enquanto a barreira de Raimundo e a que sobrou de Muriel se enfrentavam mortalmente.
Ao chegar à parede onde Yuri era preso por correntes eletrificadas eu recebi um chute nas costa que me jogaram pra lá, mas por sorte minha roupa me protegia da eletricidade. Ao virar, vi que era a vice-líder de Muriel.
– Ainda não desistiu?
– Tenho truques novos.
Com a mão que usava a soqueira ela puxou a energia elétrica que me envolveu como uma corrente me prendendo para que ela socasse meu rosto até eu enganá-la ficando invisível. Essa pausa permitiu que meu traje soltasse uma espécie de carga igual anulando a energia.
– Agora é minha vez! – juntei as mãos e soltei o poder com bastante força fazendo ela ir parar no outro lado do recinto.
Puxei novamente as duas armas, não obstante, dois capangas de Raimundo se prostraram na minha frente. Pelo visto o fato de eu ter derrotado a vice-líder de Muriel não fez muita diferença pra eles.
Apontei pros dois, mas um se teletransportou e o outro chutou minha mão antes de eu puxar o gatilho. Apontei para o primeiro, mas o segundo reapareceu chutando minha mão e deixando a frente livre para um chute no peito. O segundo apareceu atrás de mim me segurando, mas antes que o primeiro me atingisse com um segundo soco, meu traje liberou energia de novo eletrocutando o que estava às minhas costas. Eu defendi o golpe e começamos a trocar murros e chutes até que, impaciente com aquele duelo besta, soltei uma propulsão contra o cara fazendo-o voar até as correntes eletrificadas que prendiam Yuri dando um choque nele.
– Se alguma coisa me atrapalhar de novo… – um capanga de Raimundo foi levado por uma onda até centímetros de onde eu estava batendo violentamente na parede.
Eu o ignorei e cortei as correntes com as lâminas que saiam de debaixo de meu punho.
– Yuri? Você está bem?
– Tem que me devolver o anel. – disse com a voz fraca.
– Não Yuri! Tem de me dizer onde Ayala tá.
– Sem meu anel não poderei ajudar.
– Eu não vou te dar o anel Yuri, e se Ayala morrer eu juro que te mato.
Os poderes começaram a cessar à medida que tiros começaram a soar. E só de uma arma; a de Raimundo.
– Vamos Yuri! Não temos muito tempo!
– Não pode ficar com os dois ao mesmo tempo.
Você está sendo egoísta. Você nunca quis ficar com ela, aceitá-la do jeito que ela era e ainda quer me afastar dela. Como pode ser assim tão mesquinho? – agora só se ouvia as balas e eu sabia que não iam durar por muito tempo mesmo que a arma fosse recarregada.
– Eu realmente a amo, porque sou eu que quero vê-la melhor. Que quero que ela mude e saia dessa vida.
– Não Yuri. Você quer que ela seja sua representação perfeita de mulher e não sabe que todos nós temos nossas escolhas e que devem ser respeitadas.
– A única coisa que você quer, Bananinha, é alguém pra transar e que seja fácil.
Aquilo me atingiu ferozmente. Eu nunca tinha pensado em sexo quando eu estive com Maçã. Não que ela não fosse atraente, mas ela era uma pessoa e não um objeto.
Os tiros cessaram.
– E então Danilo? Como quer que eu o mate? Prefere as balas ou o poder?
Eu não respondi por causa do que Yuri tinha me dito. Mesmo como prostituta eu a tinha visto muito mais como pessoa do que ele que queria “melhorá-la” como se ela fosse um de seus carros modernos que nunca saiam do papel.
– Vou começar com as balas então.
Quando ele atirou, eu virei e rebati o projétil lançando um poder contra ele, no entanto o cara criou uma parede de gelo lhe protegendo e fazendo em seguida ela deslizar contra mim. Eu pulei pro lado levando Yuri comigo, mas querendo que eu não tivesse conseguido tirar ele do lugar. A parede de gelo derrubou a de concreto.
Ao cair eu encontrei minha arma e atirei contra ele, contudo ele se desfez em líquido e tirou a arma de mim quando a poça se aproximou. De volta ao seu estado, ele me levantou até o teto, porém antes que eu chegasse lá Yuri se atirou contra ele. Eu caí a tempo de ver Yuri socando um rosto de gelo que se encontrou com sua cara fazendo-o sangrar.
Muriel lançou Yuri longe sem usar seus braços pra fazer isso e antes que eu soltasse outra propulsão eu era envolvido por um globo de água que perdia temperatura rapidamente.
Eu vi Muriel murmurar algo como:
– Não acredito que você se envolveu tanto em minha vida por causa de coisas tão banais. Você é um Carma. Uma praga que deve ser eliminada.
Enquanto a água começava a congelar eu pensei que nada poderia detê-lo a não ser uma carga elétrica. A mesma que deve ter parado Yuri antes que ele tivesse derrotado os vinte comparsas de Muriel.
Como se tivesse pensando na mesma coisa Yuri pulou pra cima do pivete atravessando-o como se ele fosse uma cachoeira e caiu pegando minha outra arma e atirando nele. Por sorte, em vez de criar outra proteção de gelo ele se liquefez e recebeu a descarga. O globo se desfez e eu escorreguei até o pivete que caia como se estivesse tendo uma convulsão.
– Eletricidade. O quinto elemento da natureza que parece não servir pra nada, mas serve contra você. – disse Yuri parecendo repetir a frase de alguém.
– Bom trabalho Yuri. – ao falar olhei automaticamente para o anel e Yuri percebeu.
– Parado ai, Bananinha. – pediu apontando minha arma contra mim.
– Onde ela está Yuri?
– Eu vou salvá-la. Como eu fiz da última vez. – disse me lembrando do dia em que todas as prostitutas de Nêm foram mortas menos ela.
– Se você a ama deve deixá-la da maneira como ela quer. Eu também não gosto da ideia dela ser prostituta, mas é o que ela escolheu.
– E isso é bem conveniente pra você não é? – ele se aproximou ainda apontando a arma pra mim.
– Seria se eu tivesse alguma coisa com ela. Eu juro que nunca toquei nela.
– Eu vi vocês saindo de um beco.
– Ela estava sendo estuprada por Muriel. – apontei pro cara à minha frente.
– É errado acusar alguém que não pode se defender sabia.
– Yuri, essa é a hora de você se redimir. Matar pessoas é tão errado quanto se prostituir.
– Mas alguém precisa fazer o trabalho sujo. – eu me virei pra ele mais próximo agora.
– Não faça isso.
– É por causa de pessoas como você que o mal ainda existe. Que o pecado é permitido. Vocês são tão maus quanto eles. – e de repente ele preparou a arma para atirar em mim. Ele não apontava por precaução e sim pra me matar mesmo.

– Eu lamento, Bananinha, mas é melhor assim.
Então eu não tive outra escolha a não ser descarregar minha roupa outra vez na poça de água em que Yuri tava, fazendo ele cair no chão inerte e pálido.
– Yuri! – eu fui até ele. O garoto estava cuspindo espuma e seus olhos estavam esbugalhados. A energia da roupa era forte o suficiente para desacordar um mamute como Danilo, mas era forte demais para um magricela como Yuri resistir. – Tem que me dizer Yuri. Onde ela está. – silêncio. – Não adianta mais nada agora. Você perdeu. Tente aceitar isso. Você não pode mudar quem não pode ser mudado. Nem todos são como a água que muda de forma facilmente. Outros são como o fogo que sempre queima pra cima, sempre consome do mesmo jeito. – eu começara a chorar, não só por Maçã, mas também por Yuri. Eu o tinha atingido e se ele morrer, eu vou ter matado os dois. – Você não pode mudar isso. É a vida. Ela é assim.
Ele ainda ficou em silêncio por um tempo.
– Mercado… escravos… água. – aquilo não era hora para enigmas, mas foi o que ele disse antes de morrer.
Eu estava fraco demais pra continuar. Eu matei meu amigo e não fazia ideia de como ajudar Maçã. Eu não podia continuar, mas tinha. Algo em mim tentava se rebelar; tentava sair de dentro de mim, mas eu sabia, assim como que ele existia, que não seria bom se ele saísse.
Tentei botar a cabeça pra funcionar, encontra uma resposta. Ora, eu era o Eku, a equação que sempre dá uma resposta. Eu tinha que encontrar uma. Os minutos passavam e eu não via nenhuma perspectiva de vitória. Meu mundo acabara assim como a vida de Yuri: sem deixar nenhum sentido a vista. Uma vez eu me perguntei como era morrer, mas agora eu via que matar era mil vezes pior.
– Danilo. – era Raimundo. Pelo visto ele não morrera como eu supus. Ele estava encharcado e um pouco ferido. – venha comigo.
– Eu preciso salvá-la Raimundo!
– O que ele disse?
– Mercado… escravos… água.
– Não faço a mínima ideia do que seja isso. Mas posso perguntar a meu pai. Ele já deve…
Então eu percebi. A mnemônica pra mim ficava perfeita se eu colocasse mais um elemento: pai.
Meu pai uma vez me disse que os escravos ficavam presos na parte baixa do prédio que inundava com a maré alta. Era o Mercado Modelo.
– Já sei.
– Sabe o quê?
– Ele se referia ao Mercado Modelo.
– É… faz sentido. – disse depois de refletir um instante.
– Você tem um carro? – perguntei sabendo que minha roupa não ia servir pra nada agora. Olhei também o anel azul no dedo de Muriel. Novamente meu olhar foi acompanhado.
Sem dizer nada Raimundo se virou e foi até o estacionamento:
– Deve ter algum bem rápido.

Ao descer as últimas escadas do Mercado Modelo eu me deparei com dois frades. Isso se eles tivessem um terço ao invés de armas nas mãos.
– Mestre! – falou um deles. – Que bom que o senhor está bem! Rafael e Cristiano estão à sua procura. Achávamos que o senhor estava morto.
Pelo visto eu parecia muito com Yuri pelo menos no escuro. Para eles não desconfiarem, enruguei minha pele modificando-a até ficar com a cara de Yuri. Literalmente.
– Ela ainda está aí? – perguntei disfarçando a voz.
– Sim. – respondeu o outro visivelmente desconfiado pelo tom de voz.
Eles se afastaram e eu abri a porta para uma sala bem iluminada e inundada até a metade. Ao descer as escadas eu diminuir o volume d’água. Era incrível como o poder se adequava bem a mim.
– Ayala? – chamei assim que a porta se fechou à minhas costas.
– Danilo? – pelo visto ela me reconheceu.
Ela estava abatida e mais branca do que já estava. Talvez Yuri estivesse certo: talvez eu sentisse atração por ela, principalmente vendo ela naquele vestido branco e transparente por estar molhado.


Eu me aproximei dela e de repente ela ergueu a cabeça como se quisesse me beijar. Eu correspondi, mas não era meu beijo. Aquela coisa queria sair de meu peito mais uma vez. Ele dizia:
– Possua, possua.
Eu não podia fazer aquilo. Me afastei.
Ela olhou sem entender.
– Vim te salvar. – ela abriu um sorriso, mas depois fechou quando a porta abriu.
– Que bom tê-lo de volta Yuri. – disse a voz masculina atrás de mim. Eu enruguei a cara de novo.
– Melhor pra mim não é? – perguntei me virando e me arrependendo de ter dito aquilo. Se havia uma coisa que Yuri não possuía era senso de humor.
– Mal voltou e já vai pro serviço? Ela pode esperar Yuri. Convoquei uma reunião. Temos que punir quem fez isso com você.
– Eles já foram punidos. A propósito, quem te disse que eu estava aqui? Não falei com ninguém a respeito.
– Verdade. Foi um de seus guardas que me chamou. Ele tava desconfiado de você. – eu tinha razão quanto ao outro: ele percebeu. – você treinou muito bem seus homens.
“Bem até demais” pensei.
– Mas pelo visto não há com que eu me preocupar não é?
– Não. – disse tentando ser normal.
Ele continuou me olhando.
– Algum problema? – será que ele também estava desconfiado?
– Nenhum. – quando ele se virou eu também me virei, mas devia ter esperado.
Eu mal fixei meus olhos de volta em Ayala quando recebi uma fraca bola de fogo nas costas.
Eu me virei assustado.
– Perdeu seu reflexo Yuri?
Dessa vez ele lançou uma bola grande de fogo que eu parei criando uma parede de gelo, mas essa técnica não estava ficando clichê só pra mim. Ele socou a parede destruindo-a e com a outra mão me lançou uma labareda. Eu não podia me abaixar se não o fogo iria atingir Maçã em cheio. Subi uma parede de água que evaporou depois congelei a água em seus pés. O próximo golpe seria um soco de gelo, mas ele explodiu me jogando para a outra parede com Maçã, que estava presa por correntes no meio da sala, às minhas costas. Nós batemos na parede, no entanto ela me amorteceu. Confiando na força que ela disse ter eu partir pra cima do templário trazendo uma onda direto do mar, que passou pelo buraco aumentando-o. O desgraçado criou uma esfera de fogo como se fosse o sol evaporando toda a água que tocava na bola incandescente.



Eu estaria disposto a destruir o local, mas tinha que tirar Maça dali. Criei, então, um globo oco de água, coloquei-a dentro e o fiz passar por outro buraco que uma onda mais forte, sob meu comando acabara de fazer. Sozinho com aquele guerreiro, eu derrubei a parede e joguei um rio de água nele encobrindo sua bola de fogo, que foi diminuindo até que apagasse. Preso em minha mão de água eu desfiz aquele rosto lúgubre de Yuri.
– Você é bem perspicaz. Mas se fosse inteligente não viria me enfrentar em um lugar como esse.  – usei a água que o envolvia para tirar seu colar do pescoço e jogá-la no fundo do mar, dentro de alguma concha. – Adeus. – eu congelei toda a área dentro da sala prendendo-o ali dentro até o pescoço.
– Escreva minhas palavras garoto. Você não vai escapar ileso disso. Iremos caçar você e sua amiguinha e você vai se arrepender de ter nascido! Pode escrever!!
Deslizei pelas ondas ignorando-o até encontra Maçã deitada na praia.
– Você está bem? – perguntei colocando a mão em sua cabeça erguendo-a.
– E-eu devia ter… te ouvido.
– Relaxe. Pelo menos eu te salvei a tempo. – ela sorriu e balançou a cabeça.
– Não… a tempo.
Então eu percebi que o líquido que descia pelo meu antebraço era sangue e não água. A cabeça dela sangrava. No final eu de fato tinha matado os dois.




– Ayala…
– Antes… que eu morra, prometa que vai… usar o meu anel para poder acabar com eles.
– Como pode pensar em vingança agora que está morrendo? – perguntei já chorando de novo.
– Quantas pessoas você quer que eles matem ainda? Mais cem?
Ela tirou o colar do pescoço com o anel preto e levantou para que eu pudesse pegá-lo e quando o fiz, sua mão caiu fria e sem vida passando pela minha.
Agora eu tinha duas mortes, dois anéis e dois inimigos sedentos de vingança. E a única certeza que tinha é que disso eu nunca vou esquecer. Mesmo que eu tivesse duas vidas. Mesmo que eu me dividisse em dois: Toda vida é preciosa. Toda vida é importante. E os dois anéis acima de tudo servem pra me lembrarem disso até que chegue a minha vez. Até que eu morra.

























[1] Programa de Enriquecimento Instrumental





[1] Em uma barreira, as “crianças” usam canivetes, os vice-líderes uma soqueira e o líder um trinta-e-oito.

Comentários

  1. Capítulo muito bom, ainda mais com a polêmica dos religiosos hoje em dia e a perseguição de minorias.

    Os templários podiam perseguir tudo o que considerassem errado, inclusive religiosos que pensam diferente deles, acusando-os de heresia.

    Isso aconteceu no passado e não duvide que acontece hoje em dia.

    Plot redondo.

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