Capítulo VIII - As Crônicas de Isabel: Príncipe Callel - Parte 2

                                                           


        DANILO




Ao passarmos pelo beco, eu, meu irmão, Papel e suas primas, encontramos Érica que misteriosamente − ou não, já que havia um cadáver que parecia ter sido morto em um ritual – havia recuperado todas as suas amiguinhas e estavam à nossa espera.
− Vocês podem ter passado, mas a próxima viagem de vocês será pro mundo dos mortos.
− Engraçado você dizer isso. − falou Constelion. − Talvez tenhamos algumas opiniões contrárias.
Do beco estreito começaram a sair mortos-vivos que tomaram nossa frente e passaram a enfrentar as garotas. Eles eram incansáveis e cada vez saía mais do beco. Eles não sentiam dor, não paravam e o melhor, não poderiam ser mortos. Aquela breve luta foi uma prévia do que os Saiajeans iriam enfrentar desde que conseguíssemos passar todo o exército.
Na base da escada ao redor da árvore e em frente a minha casa havia uma grama rasa.
− O que houve aqui? − indagou Pé.
Expliquei brevemente a minha batalha entre mim e Mazda a qual quebrou uma de suas canetas que criaram a árvore.
− Só espero que nossa rua não vire uma selva. − disse Nessa como um agouro.
Passamos pela escada e, ao chegar à Isabel, percebemos que Mazda havia feito à parte dele. De todas as partes havia hordas de mortos que enchiam toda planície visível.
Mas ao chegar ao palácio me surpreendi ao ver não só a Princesa, mas também o Jegue.
Soltos!
− O que você faz aqui? − esbravejou Bolo.
− Como é? Ah! − disse percebendo a irritação do meu colega. − Então Mazda estava fazendo besteiras aqui também.
Brevemente eu expliquei que, enquanto estava na Terra, fui duplicado ao passo que eles me explicaram que diabos a Princesa – agora Imperatriz − e o Jegue faziam junto de nós.
− E você já providenciou falar com os Espíritos Nascentes? − questionei a “Imperatriz”.
− Vejo que não é mais preciso. − disse ela.
− Falar com Eles nunca foi seu plano não é? − disse. − Qual é o seu plano agora? Se aliar aos Saiajeans para poder governara a colônia de Isabel?
− Pelo visto, você não é muito diferente do outro. − acusou Minha Prima.
− Vai ver que temos a mesma desconfiança que vocês deveriam ter. Ou já se esqueceram do que…
− Não, Braço. Não esquecemos. − me cortou Lore. − Mas que coisa! Ela está aqui e pronto.
− Então que ela seja útil! Vá falar com os Espíritos.
− Desculpe, Danilo, mas você não me dá ordens.
Aquela vadia deveria estar se divertindo por dentro. Olhei para Bolo, Lore, Minha Prima e Formiguinha (Vanessa) e percebi que todos já estavam sob o comando da Imperatriz. Eu não tinha muita opção, a não ser acatar. Mazda já tinha feito besteira a ponto de ter sido banido por Bolo, portanto minha face já não estava agradando. Olhei para Papel e percebi que ele pensou o mesmo que eu.
− Tudo bem. − disse. − Eu matei seu deus, eu mesmo resolvo isso. − pausa para observar a expressão da Imperatriz. − Depois da guerra, é claro.
− Como quiser. − disse ela aparentemente impassível.
Em uma imensa mesa redonda, todos nós discutimos a melhor maneira de enfrentar os aliens e como meu irmão deveria posicionar suas tropas. A Imperatriz e o Jegue nos passaram o terreno de bons lugares para uma trincheira e outros para um ataque do subterrâneo.



Quando terminamos já era tarde da noite. Cada um se dirigiu a seus aposentos, não antes de eu ir falar com Papel.
− Não gosto disso. − falei baixo em um corredor.
− Nem eu. − disse ele. − Sinto como se estivesse voando de volta àquela cachoeira…
− Enfrentar um novo dragão. − completei.
− Precisamos de um plano B. Você ainda tem três poderes para colocar no anel. Podemos criar um a nosso favor.
− Na verdade são oito. Um é o de duplicação de Ph.
− Achei que esse fosse o primeiro.
− Na verdade não. Só pensei nisso depois que sair do espelho, o qual eu tenho que retornar.
− Do que você ta falando? O que houve no espelho?
− Depois eu te conto. − disse ao ver um criado adentrar o corredor com algumas roupas em mãos. − É uma história longa e já é tarde. Temos que estar bem disposto para amanhã.

Deveria dizer isso pro meu sono. Virava de um lado pro outro e não conseguia dormir. Fui até a varanda, de onde uma silhueta me aguardava. Criei uma espada de espesso gelo e atravessei a porta de vidro aparecendo do outro lado para minha surpresa completa e bestificante.
− Va-Vanessa? − ela estava pálida, trajava um vestido branco igual ao do seu enterro, exceto pelo fato de que ele estava sujo de terra e meio rasgado.


− Oi, Dan. − disse ela da mesma forma que dizia quando eu a chamava e ela aparecia graciosa de sua varanda.
− O… o que faz aqui?
− Parece que alguém me trouxe do mundo dos mortos. Ainda bem. Você não sabe o que é crer fielmente que irá para um bom lugar e aparecer em um dos seus piores pesadelos.
− Você… estava no inferno?
− Estava. Quer me mandar pra lá de novo? − perguntou mirando seus olhos sem vida para minha espada, estática e branca como eu.
Desfiz o poder.
− Eu… eu não imaginei que pudesse te ver.
− Eu fui uma das últimas a voltar. Me perguntei o que estava acontecendo quando todos os mortos do inferno começaram a subir. Os demônios estavam enraivecidos. Tentavam segurar os que subiam e subiam para fazer descer os que já estavam na Terra.
− E o que fizeram com você?
Me mandaram uma mensagem.
− Que mensagem?
Ela olhou pra mim como se sorrisse.
− A mensagem não é pra você.
− E por que está no meu quarto?
Dessa vez ela riu.
− Eu não quero voltar pro inferno. Mas se eu não entregar a mensagem a quem me trouxe de volta, eles irão me pegar.
E por que está me contando isso?
− Se você puder me deter, quem sabe eu não somo isso às minhas boas ações e vou pro céu.
Eu olhei para ela um tanto intrigado. Não tinha certeza se poderia detê-la, nem por quanto tempo. O ideal seria um anjo proteger Pé, mas não podemos confiar nem nos anjos. E se pudéssemos, talvez ele não entendesse como uma boa ação ela ter avisado.
− Eu não sei se posso lhe deter, Van. Você está morta. Eu não posso te matar.
− Pode cortar minha cabeça.
Ela falava aquilo com uma simplicidade incrível.
− Não agora, mas quando eu for atacá-la.
− Eu não posso te matar, Vanessa.
− Eu já estou morta de qualquer forma.
− Mesmo assim. Eu não…
Ela se aproximou de mim e falou baixo no meu ouvido:
− Eu sei o que você queria me dizer, antes de eu morrer. Sabia antes mesmo de partir. − disse. − Você sempre deixou isso muito claro.
− Muita coisa aconteceu depois que você morreu. Por minha causa, mais dois amigos meus morreram… praticamente em minhas mãos. Ganhei isso em troca. − mostrei anel de pedra azul e o anel negro, agora com uma pedra transparente.
− Se não fizer isso, Pé morrerá. Não quero deixar Hubertinho (Humberto) triste.
− Nem eu quero que ela morra. Mas matar você está fora de cogitação.
− Então terá que arranjar um meio termo. − disse se afastando e subindo no parapeito da varanda. − Lembre-se: eu não serei a única com uma mensagem a dar.
Ela se jogou. Pro uma fração de segundos eu tencionei segura-la, mas então lembrei que ela não poderia se machucar naquela queda.



De manhã cedo, fomos acordados com intensas explosões ao norte. Do pátio era possível ver a imensa chuva de meteoros que caía em um vale ali próximo. Nos céus, mesclados às nuvens estavam centenas de naves pairando sobre nossas cabeças.
− Começou. − disse o Jegue.
Eu, Bolo e Papel pegamos os animais mais rápidos e fomos até onde os meteoritos haviam caído. Eu montei em um grifo, Bolo em um hipogrifo e Papel em um cavalo alado.
Os cometas, na verdade eram pequenas naves circulares que pousaram com violência no solo de um vale próximo, mas todas estavam alinhadas. De repente, a esfera maior começou a abrir revelando em seu interior seu comandante… digo, sua comandante.
− Uma mulher? − se surpreendeu Papel.
− De saia jeans! − comentou Bolo.
− Por essa eu não esperava. − disse.
− Olá, jovens. − disse a mulher em uma curta saia jeans e uma blusa curta branca. Nada diria que ela era uma soldada se não fossem as ombreiras azuis e um estranho óculo de um lado meio “Soldado Universal”. Atrás dela, outras mulheres saiam das esferas, com a diferença que elas usavam a mesma saia jeans, porém, ou até o joelho ou até a canela. − Eu sou a capitã Jean Green. − parece uma campainha. − Vim dar-lhes duas escolhas: primeira, vocês se entregam se tornando uma colônia de povoamento para a Aliança Saiajeans fornecendo insumos e mão-de-obra barata.
− Isso me parece colônia de exploração. − disse Papel.
− A segunda opção − disse ignorando o comentário. − é vocês tentarem lutar contra nós. Se fizerem isso, vocês terão outras duas opções: primeira, vocês nos enfrentam e perdem tornando todo homem que habita nesse planeta um escravo e cada mulher será treinada e transformada em uma Saiajeans. Segunda, vocês nos enfrentam, nos irrita, e matamos todos os homens e tornamos as mulheres em Saiajeans.
− E aí? − perguntei. − O quê que vocês acham? Sem escravos tipo “300”, capturamos as virgens e matamos as não virgens ou damos uma surra nela e enviamos de volta paras as naves?
− Gostei da ideia de capturar as virgens. − disse Bolo.
Sorrimos e, surpreendentemente ela também sorriu.
− Acho que fico com a opção B2.
Criei minha espada de gelo e Papel fez o mesmo. Bolo retirou sua espada forjada com seu próprio fogo. Ela fechou os olhos e começou a emanar uma aura dourada que circundava seu esbelto corpo. Sua aura começou a nos atingir e derreter nossas espadas de gelo. Já Bolo parecia estranhamente irritado.
− Ela está tentando nos controlar. − disse ele.
− Como sabe? − perguntei.
− É o mesmo que eu faço.
− Vadia! − Papel disparou um poder branco de gelo que passou ao lado dela e eu lancei uma bola de fogo, contudo a Saiajeans desviou novamente.
De repente nossos animais alados nos derrubaram. Bolo se levantou e partiu pra cima da capitã que desviava facilmente da lâmina afiada do rei. Do chão, eu disparei para o céu um raio de luz avisando a Constelion, abrigado do sol no palácio que era hora de ordenar o ataque.
Os mortos vivos saíram desbandeirados ao encontro das Saiajeans que dispararam seus poderes destruindo o corpo de muitos, parando um ou outro, mas não derrotando nenhum.




Papel também entrou no combate mostrando que seu apelido era só isso mesmo, um apelido. Bolo continuava a enfrentar a mulher que criou dois discos de energia usando um como escudo e outro como arma. Me juntei a Papel por um tempo ajudando a obliterar o exército feminino.
Pelo que pude perceber, o tamanho das saias eram inversamente proporcional ao poder das donas, sobrando, assim, mas guerreiras de saia até o joelho do que até a canela. Percebi também que Bolo estava começando a fraquejar contra a Saiajeans que mal cobria as belas e torneadas pernas nem o tesouro logo acima. Usei também, o até agora inédito poder de duplicação de Ph que rachou, não só a alma da mulher, mas também sua ombreira de lado a lado, sua blusa e sua calcinha que caiu por entre suas pernas. Só não dividiu a saia.
Com a derrota de sua líder, as guerreiras de saia de evangélica, entraram em seus orbes e voaram de volta para as naves lá em cima.
Outras chuvas de meteoros caíram ao longo do país, mas estávamos prontos pra elas. Todos participaram da batalha, exceto a Imperatriz e o Jegue. No calabouço, onde eles deveriam estar, a comandante Jean Green dormia tranquilamente, como se não tivesse iniciado uma cadeia de derrotas em massa.

− Tim-Tim! − gritaram todos comemorando nosso primeiro dia de vitória.
− Parece que seu exercito é bem eficiente. − disse o Jegue para Pé.
− Na verdade o exercito agora é de Constelion. − disse ela levantando a taça em homenagem ao meu meio-irmão.
− Obrigado, mas se vocês não tivessem sido meus olhos e bocas, não teríamos um sucesso tão grande.
Entre risos e bebidas (muitas bebidas) eu chamei Papel em um canto.
− Preciso te falar uma coisa.
− O que foi man?
− É sobre sua prima, Pé. Ela ainda corre perigo.
− O que? − de repente ele parecia mais sóbrio do que eu.
− Van veio me falar ontem. 
− Vanessa… de Alice[1]?
− É. Devo confessar que mesmo morta ela está linda. Ela disse que os demônios ainda querem a cabeça de Pé.
− Mas ela não controla mais o exército.
− Eu sei, mas foi ela que os trouxe de volta. Van me disse que foi designada para lhe dar uma mensagem, mas ela não é a única. Ela me avisou para que, com esse gesto, ao voltar ela vá para o céu e não para o inferno.
− Meu Deus! Temos então que proteger Lari.
− É. Eu até colocaria um guerreiro das sombras, mas Mazda fez o favor de destruir o poder do anel negro.
− Temos que pensar em outra coisa.
− Nada, nem ninguém é mais forte que um ser que não pode ser morto. Um lacaio, eu, você, a Imperatriz… não somos páreos contra alguém que nunca pára, nunca cansa, nunca morre.
− E qual é o seu plano?
− Levar Pé para o outro mundo e trancar as escadas. Afinal, todos os mortos estão aqui.
− Pessoas morrem todo dia, Braço.
− Mas os demônios não podem trazer os mortos de volta, só Constelion.
− Não podem trazer os mortos, mas eles próprios podem vir à Terra.
− Só se houver um número de anjos correspondente. − disse Constelion nos pegando de surpresa. − Desculpe. Mas eu não durmo à noite, mesmo que passe o dia acordado e tenho ouvidos muitos sensíveis.
− Tudo bem. Você é da família. − Disse Papel.
− Certo, mas fomos atacados por dois demônios e… espere. A capa que eu peguei de um deles leva a uma dimensão alternativa.
− Como o espelho em que você ficou? − perguntou Papel.
− Uma menor e menos perigosa. Lá ela estaria segura.
− Exceto pelo fato que caçariam você. − disse meu preocupado irmão.
− Eu creio que posso lhe dar com eles melhor do que Pé.
Um breve silêncio seguido por meneações afirmativas de cabeça.
É. Eu estava certo.
Papel ficou de falar com Pé e eu, por desencargo de consciência, entrei na minha própria capa e verifiquei o ambiente. “All Clear” ou como ficou sua famosa abreviação: O.k.

Os dias subsequentes não foram muito diferentes exceto depois do quarto dia em que uma comitiva real veio até nós, liderada por ninguém menos do que o tal famoso e desconhecido príncipe Callel.





− A que devo a honra, alteza. − falou o Jegue.
− Montgomery. Achei que tivesse sido deposto.
− Montgomery? − sussurraram as meninas espantadas pelo nome daquele animal.
− Como vê, precisava proteger meu mundo.
− Hm. − disse passando por ele e se aproximando da Imperatriz. − Ouço falar de seu nome desde as fronteiras de Golan. A Imperatriz que tem o indefensável exército que pode nos proteger dos Saiajeans.
− Parece que alguém está levando fama em cima do nosso trabalho. − comentei.
− Ainda aqui? − questionou o Príncipe que era a cara de Pombinho. − Achei que depois de sua lastimável derrota você seria expulso.
− Ele não é o mesmo que nos acompanhou até o seu reino. − explicou a Imperatriz.
− São… trigêmeos?
− Na verdade aquele era uma personalidade minha que acabou ganhando um novo corpo. − expliquei. − Ele se chama Mazda e eu Danilo.
− Vei, ele é a cara de Mãozinha (Pombinho). − disse Nandinho.
− Mãozinha? − indagou o príncipe.
− É um amigo nosso. − informou Nessa. − Você se parece muito com ele.
O príncipe riu.
− Mas, então? − perguntou Lore. − Você reconsiderou e veio nos ajudar?
− Não. Vim lhes dizer que, caso não aceitem minha oferta de dar cinqüenta por cento de toda Isabel, vocês estarão condenando o planeta de vocês à destruição.
− Do que você está falando? − interpelou Bolo.
− Depois da derrota dos Saiajeans, eles pretendem utilizar um poder incomensurável contra o núcleo de Isabel. Eles já tentaram isso antes em vários planetas.
− Achei que eles quisessem nos colonizar e não nos destruir. − falou Papel.
− E esse continua o plano. − disse o nobre. − A energia afetará diretamente a essência do planeta que se renderá aos domínios dos Saiajeans.
− Fala como se o planeta fosse vivo. − comentou Minha Prima.
− E é. − dessa vez quem respondeu foi o próprio Jegue. − Eu, por ser um animal selvagem − é, ele disse selvagem. − posso sentir mais intensamente o poder de Isabel. Seu nome próprio não é à toa. Aliás, é bem comum em planetas do nosso sistema solar.
− No núcleo do planeta reside sua força ativa e consciente. − continuou Cal. − Assim como em todo planeta. O plano dos Saiajeans é atingir esse núcleo e convergi-lo à sua vontade voltando-o contra seus próprios habitantes. No entanto Isabel está nesse momento em conflito com os Espíritos Nascentes que perderam seu deus dragão. Se Isabel for atingida, ela pode ficar fraca demais a ponto de morrer. E se isso acontecer, a proteção dos Espíritos ficará Tênue demais para sustentar o equilíbrio que mantém o planeta em órbita e em perfeito estado.
− Deixe eu ver se entendi. − comecei depois que todos iniciaram murmurinhos de surpresa e temor. − Você está barganhando a vida do planeta em que você mesmo vive?
− Talvez sua outra personalidade não tenha lhe dito, mas eu não sou desse planeta. Sou filho do deus Jolel que me enviou pra cá depois que nosso planeta foi destruído pelo titã do sol. Não tenho nenhum laço com esse planeta e posso me mudar facilmente.
− Então o filho de um deus se rebaixa a ponto de proteger os habitantes de um planeta apenas se ele sair lucrando com isso? Que tipo de educação divina você anda recebendo?
− Braço, cale a boca. − mandou Lore visivelmente irritada. − Sua cara metade já fez merda antes, você não vai terminar o serviço.
− Por acaso eu disse alguma mentira? Não é isso o que ele está fazendo? Nos chantageando.
− Estou lhes dando uma oportunidade de salvar suas vidas.
− Por um preço muito alto, não acha?
− Isabel é grande. − respondeu com cinismo.
− Braço tem razão. − concordou Papel. − Talvez seja um preço alto demais e já sabemos o que os Saiajeans planejam.
− Eu não disse como.
− Você não entendeu: nossa resposta é não. – disse.
− Essa é a sua resposta. − disse Minha Prima.
− Vocês não estão pensando em considerar essa ameaça, estão?
− Mas é claro! − respondeu ela com simplicidade. − Temos o maior e melhor exército, mas como vamos mandá-los pro espaço? Você tem algum anel que se transforma em nave? Ou pode tirar um ônibus espacial de sua bela capa?
− E você não se importa em dividir cinquenta por cento com cinquenta cabeças?
− Por que cinquenta? Eu só vejo Lore, Formiguinha, Bolo, o Jegue e a Imperatriz como os reis de Isabel. Ou você acha que você também é rei.
− E quem você acha que limpou o trono que você está sentada agora? Quem derrotou a Princesa que agora vocês resolveram nomeá-la de Imperatriz? De quem era o exército que varreu desse palácio todos os nossos inimigos?
− E quem ficou aqui para reorganizar o governo? Prender os dissidentes, restabelecer a ordem? − interpelou Bolo. − Aqui não é mais sua barreira, “mestre” que você dá as ordens e depois se sai.
− Se está questionando meu título, então prove que o merece mais do que eu. − disse criando minha espada de gelo.
− Acha que esse seu picolé pode contra minha espada forjada pelo fogo mais poderoso dessa nação?
− Não faça isso Bolo. − alertou Papel. − Ele já derrotou um dragão. Um deus!
− Eu sou mais que isso.
− Você se superestima demais. − parti pra cima dele em uma luta emocionante. Ele representava os reis empossados de Isabel (Minha Prima, Lore, Formiguinha, a Imperatriz e o Jegue) enquanto eu representava os outros (Papel, Pé, sua irmã Nessa e meu irmão Constelion que estava ao meu lado). Nandinho e Dente estavam apenas assistindo junto com o príncipe que nos avaliava.

Bolo era bom de luta e contava com a ajuda de seus tentáculos que chegou a ferir meu braço, no entanto eu tinha muito mais que isso.
Em uma sequência rápida e estonteante ele tirou a minha espada com um dos tentáculos, segurou meus braços com outros dois e cravou sua espada em minha barriga.
− Adeus, “alteza”. − seu erro, além da arrogância foi ter soltado meus braços.
Eu entrei na capa junto com sua espada presa em mim trazendo seu braço junto. A capa criou um buraco negro fechando-se sobre ela mesma. O “rei” gritou de dor sem entender o que eu fizera.
Logo em seguida um novo buraco foi aberto cuspindo a capa e eu em seguida segurando seu braço preso a espada. Com ele dei um corte diagonal em suas costas derrubando-o.
− Adeus. − respondi.
− Isso não lhe dá o direito de mandar em nós. − disse Minha Prima amedrontada.
− Não. − falei tirando a espada da mão inerte e jogando o braço sobre o corpo de Bolo. − Mas me dá o direito de instituir uma votação. − silencio.
− Precisamos de um tempo pra pensar. − falou Formiguinha.
− Concordo. − disse sua xará antes que Minha Prima dissesse mais alguma coisa.
Enquanto os reis se alojavam dentro da sala de reuniões a portas trancadas, nós nos contentamos com uma das várias salas do castelo protegido por mortos-vivos. Callel esperou com sua comitiva. Dente e Nandinho resolveram se unir conosco.
− Vei, isso não vai dá certo.  − disse Nandinho. − Primeiro ele pede cinquenta por cento. Depois temos outro problema e ele pede mais vinte. Aí tem outro e ele pede mais quarenta.
− Isso dá cento e dez por cento Nandinho. − corrigiu Nessa.
− Mas ele tem razão. Ele já ta pedindo o antebraço. Em breve não vai ter Isabel pra dividir.
− Em todo caso, que filho de deus é esse que sabe que o planeta será destruído e ainda quer barganhar? − indagou Papel.
− É, mas ele ta em condições de barganhar. − falou Dente.
− A impressão que eu tenho é que ele vai acabar ajudando de qualquer forma, só quer tirar vantagem disso. − falou Constelion num canto escuro.
− É, Braço tem razão. − falou Pé.
− Braço sou eu.
− Ô. Foi mal, Dan.
− Mas ele ta certo. Pelo que eles me contaram, a Imperatriz, Mazda, Lore e Formiguinha foram até ele e ele se recusou. Se ele ta aqui de novo, é por que ele quer tirar vantagem.
− Mas de uma coisa ele tem razão. − disse Nessa. − Não temos como atacar as naves. Estamos só na defensiva e eles vão acabar descobrindo um jeito nos vencer.
− Roubamos as naves de Callel. − aconselhou Nandinho no momento em que um lacaio pedia para falar conosco.
− Deixe-o entrar. − ordenou Constelion.
− Pode falar. − disse.
− Como as outras altezas estão incomunicáveis, resolvi dar o recado a vocês mesmo. − falou o pobre homem. − A mulher que os senhores capturaram acabou de acordar.
− A Saiajeans, Jean Green? − Isso é quase um trava-língua.
− Ela mesma.
Fomos até a cela onde ela estava alocada.
− Boa tarde. − disse eu.
− Senhor, são dez da manhã. − cochichou o lacaio que nos acompanhou.
− Como o dia passa devagar aqui. − comentei.
− Quem são vocês? − perguntou Jean.
− Não se lembra de mim? − indaguei.
− De um sonho. Ele também. − apontou para Papel. − Mas os outros não.
− Eles são os reis de Isabel. Planeta em que sua raça tentou nos roubar.
− Por que nós faríamos isso?
− Poder. − arriscou Nessa.
− Prazer. − tentou Constelion.
− Riqueza. − chutou Papel.
− Expansão do império Saiajeans. − palpitou Nando.
− Quebrar a rotina. − todo mundo olhou pra Dente.
− Pelo visto, motivo não falta. − disse ela.
− Falta justificativa. − falei. − Não queremos entregar nosso planeta, assim como não queremos uma guerra sem fim.
Ela olhou para sua saia incólume, ao contrário de sua blusa aberta.
− Eu posso falar com minha superior.
− Isso seria ótimo. Tem nave?

De fato, aquilo poderia ser o fator que precisávamos para vencer aquela guerra sem precisar do ambicioso príncipe divino. Quando os reis empossados de Isabel terminaram sua reuniãozinha particular, o horário do voto foi decidido. Todos os nobres estavam reunidos numa imensa mesa redonda, incluindo Bolo que, com a ajuda de uns feitiçozinho da Imperatriz teve seu braço colocado no lugar.
Todos estavam reunidos, exceto eu que providenciei uma fuga para Jean Green em sua bola espacial na qual eu fui junto. Usei a capa para me camuflar ficando invisível, incluindo aos sensores que as Saiajeans usavam que pareciam uns óculos capenga. Tava começando a gostar daquela capa demoníaca.
O globo espacial subiu até a nave mãe onde a capitã foi recebida por outras Saiajeans de saias até o tornozelo.
− Capitã Green? − disse uma delas. − Soube que a tropa da senhora foi derrotada no primeiro dia. Graças a Thiamat a senhora está viva.
− Obrigada. Agora preciso falar com minha superior.
− A general Natalie irá recebê-la.
Ela, digo, nós fomos levados até a ponte onde uma Saiajeans com uma saia (que poderia ser chamada de cinto) jeans na cintura nos aguardava.
− Capitã Jean. Vejo que um deus tem sim sentimentalismos.
− Perdão senhora. Acho que não compreendi.
− Quer mesmo que eu acredite que você conseguiu escapar de Isabel sem ajuda? É claro que aquele deusinho lhe deu escapatória. Pois que ele saiba que se os reis descobrirem sobre seu envolvimento conosco e o colocarem em uma câmara de esmeralda, eu não vou estar nem aí. Bombardeio esse planeta cheio de homens feios e mulheres fracas e parto pro próximo. O importante é não deixar a imperatriz Morgana entediada. − No final das contas, Dente estava certo.
− Pelo pouco tempo em que passei aqui − disse Jean. − parece que esse planeta não tem nada de interessante. Nem física nem biologicamente. Aliás, o tempo aqui é uma bagunça, assim como seu governo. Estamos perdendo recursos aqui.
− Discordo. Perdemos muito mais naves, mulheres e dinheiro em Belbut do que aqui. Além do que, você tem um forte e poderoso contato entre os cabeças de Isabel. Nossas derrotas foram só a calmaria antes da tempestade que eles enfrentarão.
Depois disso, Jean se retirou e foi para os seus aposentos. Disse a ela que voltaria para Isabel relatar o que houve e voltaria como planejado, para decepar a cobra que tentava dar o bote em meu planeta. Sim. Isabel também se tornara meu lar.

Ao chegar à sala onde o voto era feito, ouvi Bolo dizer triunfante que eles ganharam e dariam a metade que Callel queria para nos ajudar contra as Saiajeans.
− Callel é um traidor! − disse.
− Que história é essa? − interpelou Minha Prima. − Além de não estar aqui para votar, vem querendo embaralhar o que já foi definido.
− Bilhares de Dente estava certo. Elas só querem invadir Isabel para distrair sua imperatriz e contam com a ajuda dele.
− Como ousa acusar um deus?! − interpelou
− Você não é um deus. É, no mínimo, um agente duplo. Ele tinha um caso com a prisioneira Jean Green e prometeu ajudar as tropas alienígenas.
− Em troca do quê?
− Seu planeta de volta. − arrisquei. − Pensem bem: ele disse que seu planeta foi destruído e seu pai o enviou pra cá junto com seus asseclas. Aqui ele vive pacificamente até que quem ele encontra de novo? O mesmo povo que destruiu sua terra natal.
− E eu me aliaria com aqueles que mataram minha família?
− Se não pode com ele, alie-se a eles. Você pode muito bem estar fazendo um acordo para entregar Isabel e ter seu mundo de volta.
− E você pode muito bem estar mentindo, a não ser que tenha provas.
− Danilo, por que você não traz aqui a tal capitã Jean Green para interrogarmos ela? − sugeriu a Imperatriz.
− Porque eu a levei de volta para a nave mãe onde ela teve uma conversa muito interessante com a general Natalie. Conhece?
Callel riu em meio aos suspiros dos outros.
− Vejo que suas tentativas de desfazer um acordo secular são patéticas.
− Vamos ver quem é patético. − eu retirei de baixo da camisa na parte de trás do short um 38 com desenhos feéricos[1] e apontei para o Príncipe.
− Braço, abaixe essa arma! − pediram as mulheres.
− Você ainda tem essa arma? − indagou Bolo surpreso.
− Uma vez líder, sempre líder. Até morrer.
− Pode parar de plagiar o hino do Mengão. − falou Dente.
− Deixe ele. − falou o príncipe. − Nenhum metal pode me ferir. Essa é só mais uma tentativa patética de nos dissuadir, assim como seus argumentos falhos e infundados.
− Meu Primo, isso não tem graça. − falou Minha Prima.
− Alteza, mesmo que o mate, não pode desfazer o acordo. − disse a Imperatriz. − A maioria venceu, e se o príncipe estiver morto, a metade de Isabel ficará com sua corte.
− Quem falou em matar? Acha que pode parar bala no peito? Pare essa. − Com essa frase de efeito, puxei o gatilho e disparei a bala verde que atravessou o espaço vazio sobre a mesa até chegar a mão sólida de Callel que foi transpassada feito gelatina e atingir o ombro do mesmo derrubando-o.
− Alteza! − todos correram para socorrer o príncipe que recuperou sua mão, mas não seu ombro onde a bala se alojara.
− Braço, você ficou maluco?! − me interpelou Formiguinha.
− Ele tinha razão. − disse eu. − Ele era imune a todo tipo de metal, desde os mais fortes, contudo essa bala não foi feita de metal algum e sim de esmeralda. E pela surpresa da Imperatriz e do Jegue parece que ela era o único material capaz de ferir o príncipe. Estou certo?
− Sim. − confirmou o Jegue.
− Como você soube disso? − indagou Nessa.
− Pelo o que vocês me contaram, só o Jegue e a Imperatriz sabiam sobre Callel e certamente eram os únicos que tinha conhecimento de sua fraqueza. Mas se nem um dos dois me falou a respeito disso, quem mais diria?
Eles perceberam que eu estava certo e se afastaram.
− Um traidor? − indagou um Bolo abatido, ou melhor, solado.
− Braço tinha razão. − percebeu Lore. − Deveríamos ter te escutado.
− Sem problemas. A humanidade gosta mais de ver gestos do que ouvir razões[2].
− Esse era seu plano desde o início? − perguntou a Imperatriz. − Nos vender para os Saiajeans?
− Quem garante que esse não era o seu plano? − indagou Papel. − Foi você que deu a ideia de procurá-lo, não foi? Você e o Jegue.
− Eu nunca venderia meu próprio lar. − responde a Imperatriz em tom ofendido.
− Se Cal se vendeu aos Saiajeans, é por que ele não tinha mais nada a perder. Nós sim. Seja por diversão ou não, os Saiajeans irão acabar com esse planeta se não os determos.
− Eu sei. E é por isso que voltarei até a nave mãe com a ajuda de Jean e matarei Natalie e todo o seu exército.
− Por que essa Jean iria nos ajudar de repente? − indagou Minha Prima.
−Eu dividi sua alma. Parte dela é a soldada fiel à aliança Saiajeans. A outra é uma garota confusa que não quer ser parte de um plano para destruir um planeta inocente. Ela está do nosso lado.
− Tem certeza que podemos confiar em uma personalidade de uma soldada, Braço? − perguntou Papel.
− Sim. − respondi sem titubear. − O único problema seria se Jean voltasse a ser o que era. Por isso, eu tenho que ser rápido.
− Eu vou com você. − falou o calado Nandinho.
− Eu também. − Dente.
− O.k.
Em seguida, “se alistaram” Papel e suas primas. Os reis decidiram ficar protegidos em seu fortificado castelo. Constelion também queria ir, mas por ser o controlador do nosso exército, ele achou mais prudente ficar em terra firme.
− Quanto a vocês dois, levem-no para uma cela de esmeralda que eu tomei a liberdade de mandar construir.
Pude perceber pelo olhar dos reis que eles não gostavam nem um pouco de me ver dando ordens, mas depois do ocorrido, pensei que eles deveriam me obedecer de bom grado.

Coloquei Nandinho e Dente na capa juntamente com os Pomponet. Peguei a nave de Callel e, com a ajuda de Jean, cheguei até a imensa nave mãe sem ser notado. Ela nos acompanhou até a ponte onde Natalie nos aguardava com mais duas Saiajeans de micro-saias.
− Obrigada, Capitã Jean Green, por trazer os líderes da resistência isabelina.
− Foi um prazer, senhora. − respondeu fechando a porta às nossas costas.
− Eu sabia que não poderíamos confiar nela. − disse Nessa.
− Ah, não. De fato Joaquina estava ajudando vocês, mas eu sou muito mais forte que ela. Não foi difícil reaver o controle sobre meu corpo.
− Aproveite, pois será por pouco tempo. − disse.
− Espero que seu poder seja maior que sua pretensão. − respondeu lançando uma bola de energia.
Eu me protegi com a capa lhe lancei uma bola de fogo que ela desviou. Trocamos poderes enquanto Papel atacava Natalie com seus raios congelantes. Nandinho e Nessa partiram pra cima de uma generala, enquanto Pé e Dente atacavam outra. Por não ter nenhuma habilidade em terreno seco, Pé foi derrotada rápido, deixando Dente sozinho contra a generala que possuía boa esquiva evitando a metralhadora bucal dele que disparava dezenas de dentes feito balas. Mas ele tinha uma carta na manga. Ou melhor, uma bola de mouse que usou como bomba atordoante na Saiajeans. Nandinho, que se teletransportava incessantemente de um lado pro outro, ajudou a finalizar a mulher. Sua parceira Nessa, que de fato não precisava de sua ajuda, fez um kata inteiro contra a Generala que enfrentava e a derrubou em tempo recorde. Na outra ponta da sala a minha luta contra Jean era equilibrada, mais pelo fato de eu não querer machucar o corpo que também era de Joaquina do que pelo poder da Saiajeans. Contudo eu tinha que dá um fim nela, assim como Papel o fez ao se transformar em uma neblina que, ao ser inalada por Natalie, a sufocou.
Só faltava eu. Só restava ela.
− Acabou. − disse. − Todas as suas superiores foram derrotadas.
− Você sozinha não pode contra todos nós. − falou Nandinho, enquanto Nessa olhava sua irmã desacordada.
− Acha que só porque elas são mais graduadas do que eu, elas são mais fortes? Estão muito enganados.
Jean criou aquela áurea de novo jogando ondas de calor contra nós. Em resposta, Papel criou outra aura, porém azul que emitia ondas de ar frio. Eu coloquei todos de volta na capa para que fossem protegidos do choque térmico. Fui, protegido pela capa, até o painel de controle cheio de botões fálicos e mirei nas naves ao redor da nave mãe com os canhões dianteiros, laterais e traseiros. Antes de disparar, recebi uma mensagem de uma das naves adjacentes:
Senhora Natalie, recebemos um alerta de que os canhões da Lacan estão apontados para as outras naves. Isso confere?
Com simplicidade eu apertei um botão que lembrava a alavanca do joystick do Atari e disse:
− Não há engano. Eu estou atirando. − em seguida disparei todos os canhões atacando todas as naves que pairavam sobre Isabel. Logo depois coloquei um pendrive com um vírus criado por Corcunda (Leandro) alguns anos atrás que me passava todos os controles e códigos do computador infectado. Com isso consegui a senha para ativar o sistema de autodestruição das outras naves que explodiriam antes de chegar até nós.
Enquanto fazia isso, surpreendentemente, percebi que as outras naves também revidavam, mas suas forças bélicas eram inferiores aos escudos da Lacan. Atrás de mim, Jean disparou uma bola de energia das mãos jutas como uma flor. E Papel fez algo parecido, mas com a mão fechava como se desse um murro.
Para ajudá-lo, deixei o ambiente úmido o que facilitava a propagação do ar frio, entretanto, para ajudar a Saiajeans, a ponte foi atingida por um dos tiros sofrendo um incêndio que se alastrou por toda cabine.
− Papel, respire fundo. − terminei de destruir a parede da cabine que, aberta para o vácuo, sugou não só o oxigênio, como também o fogo e a áurea incandescente de Jean.
Papel criou uma camada de gelo que o prendia no chão e Jean começou a flutuar enquanto sua energia se esvaia. Preparei uma lança feita de água e lancei contra a Saiajeans assim que não havia mais oxigênio. A lança líquida congelou ao encontrar o “ar” abaixo de zero do universo e atravessou o ombro da mulher. Seu grito de dor liberou o único ar preso em seus pulmões. Ela sufocou e perdeu a consciência.
Voei para trás de Papel que se desprendeu e caiu direto na minha capa junto com Jean devido à gravidade ausente. Tirei dela uma máscara que me dava oxigênio ilimitado e voei para a atmosfera de Isabel. Enquanto isso as naves menores terminavam de serem despedaçadas pela Lacan e as que vinham do horizonte explodiam antes mesmo de fazer o primeiro ataque exceto uma que lançou um míssil maior que o normal direto para a cabine indefesa.
Voei o mais rápido que pude para o planeta esverdeado, mas a mega-explosão me alcançou quando eu já sentia a lufada rarefeita da estratosfera de Isabel. Também foi a última coisa que eu senti antes de desmaiar.
Acordei em meio, não a uma lufada, mas uma verdadeira ventania que chegava a deformar a pele do meu rosto em ondas, incluindo minha bochecha. Quando acordei vi que caia direto em uma vala branca que parecia congelada. Tentei planar e parar, mas vinha a uma velocidade tão grande que não pude evitar bater nas paredes do corredor de pedra e cair em uma planície branca e lisa.
Nessa brincadeira eu quebrei umas duas costelas e desloquei o ombro, mas, como já era de se esperar, me recuperei rápido. Olhei pro corredor imaginando onde eu estava e depois para a cachoeira congelada a minha frente. Comecei a achar aquilo familiar, quando uma luz azul saiu do chão branco que na verdade era um lago. A luz foi ficando mais forte e fui me afastando, mas não a tempo de ser derrubado pela ascensão de um magnífico dragão branco.




Eu deslizei até a borda, mas ainda sim estava no alcance daquela fera que se parecia muito com o que eu… espere! Era o mesmo dragão.
− Essa não.
− Com medo que eu queira me vingar do que você havia feito comigo? − disse o animal. − Eu, como você ficou sabendo, sou um deus. O único que essas terras já viram. E, como tal, não posso ser morto, muito menos por um jovem qualquer. A propósito, isso não lhe pertence mais. − o dragão falante mirou seu indicador para mim com o efeito de levantar meu braço em sua direção. Não, não era o braço. Era o dedo em que repousava o anel prateado de pedra azul. Quando o objeto saiu do meu dedo e foi para o dele (cabendo facilmente apesar do tamanho desproporcional), meu braço caiu novamente.
− Mas por quê?
− Você não é um mago e foi como se fosse um que tentou me matar. Agora que sou um dragão branco e não vermelho[1] o anel deve ficar comigo até que eu nomeie o primeiro mago das águas nessa era.
− Se você é um deus, me conceda algum poder.
− Conceder um poder a você? − repetiu como se aquilo fosse um ultraje mais que absurdo.
− S-sim. Sei que pareço poderoso, mas tudo isso se deve aos meus anéis.
− O problema não é esse. Você nasceu sem poderes, pois foi destinado ser um mal poderoso demais a ponto de ser inexpugnável. Se eu te der poderes, posso estar selando o fim do mundo.
− Um mal? Do que você está falando? O único mal que eu conheço tem sim a minha cara, mas ele tem muito mais poderes do que eu. Principalmente agora que ele tem uma caneta que torna realidade tudo o que ele escreve.
− Mazda não é o mal. Você é. − tava começando a achar que aquele lagarto alado passou tempo demais no gelo. − Se ele hoje é um Arquiteto Humano do Universo, é por que ele de fato é bom e foi destinado a ser um semideus. Mas se você, ao invés disso tem uma marca negra no braço e uma capa demoníaca, então você é o mal. − como ele sabia da marca? − Está escrito no Livro dos Dias. − esse livro de novo?
− Eu não acredito em destino. O fato de eu ter sido ferido, ou usar essa capa não diz o que eu sou por dentro.
− A marca não é apenas uma ferida mal cicatrizada. É um sinal indicador. Você é o mal, Danilo e não há nada que você possa fazer contra isso a não ser que se suicide ou deixe que eu te mate piedosamente.
− Espero que você tenha muitas peles, pois você irá morrer tentando.
O dragão riu. Sabe aquelas horas que você quer provar que não é uma coisa e acaba corroborando as suspeitas alheias. Pois é. O dragão sorriu como se eu tivesse acabado de fazer isso.
− Olha aqui. Eu salvei uma amiga minha hoje e evitei a destruição e/ou colonização de todo um planeta. Como pode achar que eu sou mal?
− O príncipe que você acabara de prender, Callel, era considerado o ser mais justo em seu planeta, até que seu lar foi destruído e ele, numa tentativa de preservar o que havia de bom em Gabriela, foi enviado para cá, onde se aliou às tropas inimigas e foi preso recentemente por você mesmo acusado de traição. − para um deus, ele tava onisciente demais. − As coisas mudam.
Eu decido meu destino. Eu faço minhas próprias escolhas, assim como Callel fez as dele ao se aliar aos Saiajeans.
− Tem certeza que é apenas questão de escolha?
− Você pode ser um deus, mas não escreve meu destino.
− Não. Mas eu sei ler. − ele pareceu arquear uma das sobrancelhas ao dizer a última frase pouco antes de alçar vôo a um céu cheio de pedaços incandescentes que caiam das naves destruídas.
Eu pensei por um momento no que ele havia e dito, então me lembrei dos meus amigos guardados na minha capa. Tirei todos, exceto Pé.
− Estão todos bem?
− Acho que sim. − respondeu Dente.
− Aí estão vocês. − falou uma voz lúgubre. Era um morto-vivo acompanhado por mais cinco no meio do corredor e mais dois arqueiros em cima das falésias. − Nosso mestre ficou preocupado ao ver as naves explodirem e vocês não voltarem.
− Estamos bem. − falou Papel percebendo algo que ainda não havia captado, pois a recente conversa com o deus dragão ainda rondava minha cabeça. Não era a primeira vez que me acusavam de algum defeito que eu definitivamente não tinha. O pior era ouvir que Mazda, aquele sociopata era bom e eu mau.
− Estão todos aí? Sinto falta daquela menina loira.
Agora sim eu tinha entendido a preocupação de Papel.
− Tem razão. − disse Nessa. − Eu não vi Pé sair de sua capa.
Então eu vi Van.
− Está em um lugar seguro. − disse eu.
− Seguro de quê? − questionou ela. − As Saiajeans foram destruídas.
− Tem razão. − me ajudou Papel. − Não precisamos de escolta. Voltamos sozinho.
− O mestre insiste.
− E qual é o nome de seu Mestre? − o morto-vivo não respondeu.
− Como eu imaginei. − Falou Nandinho.
− O que quer dizer? − indagou Nessa.
− Ele não está sobre o controle do dono do anel, no caso Constelion. − informou Dente.
− Como você sabe? − perguntei.
− Ah! Danilo.
− Foi uma resenha aí. − disse Nandinho. − Depois eu te conto.
− O que está havendo? − interpelou Nessa.
− Eles querem Lari. − respondeu Papel.
− Por quê?
− Meu mestre quer ela.
− Então dê esse recado a ele. − lancei uma bola de fogo na cara do morto-vivo, mas ela explodiu queimando mais dois atrás dele.
Os arqueiros apontaram para nós, mas Papel fez a neve das paredes engolirem os atiradores. Dente disparou sua rajada de dentes contra um dos zumbis sem muito efeito, enquanto Nessa dava seus golpes de longe, mas de efeito significativo. Do fundo, Van lançou uma lança que atingiu minha capa me levando para o buraco em que o dragão havia saído. A lança só parou no fundo do lago onde a capa “coincidentemente” não queria sair. Tirei Jean e Pé dela e, com a espada de Bolo, cortei a parte que me segurava. Tentei nadar até a superfície que, sem o anel do mago das águas parecia mais distante. Perto da superfície, pedaços de gelo começaram a afundar junto com os escombros das naves que finalmente chegaram ao solo.
Eu emergir em meio a uma chuva de ferro e fogo onde meus amigos tentavam se proteger entrando pela abertura feita na cachoeira que dava a uma caverna.
− NANDO! − gritei. Ele se teletransportou e disse:
− Só posso levar um. − Leve Pé.
Ele aquiesceu e desapareceu junto com a garota loira. Eu subi no bloco de gelo com Jean que ainda estava desacordada e percebi que, dos mortos-vivos só os que foram queimados não estavam mais nos caçando. Em compensação, todos os outros estavam próximos demais de mim e da Saiajeans que, graças a deus, acordou.
− Joaquina?
− Jean.
Só se for graças ao deus dragão. Olhamo-nos  por um tempo até que ela desviou o olhar para o céu que caía e para o exército que havia derrotado ela. De repente ela desviou de uma flecha rolando pro lado e criou sua aura novamente, entretanto a concentrou nas mãos e lançou sobre a placa de gelo em que os mortos-vivos caminhavam. Quase todos mergulharam no lago gelado. Quase todos, pois Van conseguiu se segurar na borda. No início eu vi só a mão pálida e esquelética, então saquei a espada de Bolo. Ao me aproximar vi a jovem que esperava por meu golpe conformadamente.
− Espero que tenha valido de alguma coisa. − disse ela entre os lábios submersos.
Eu me abaixei e puxei-a para a superfície.
− O que está fazendo? − indagou Jean.
− Não posso matá-la.
− Não foi isso o que ela tentou fazer com você?
− Se quisesse teria acertado meu peito e não minha capa.
Com as duas mulheres, corri para dentro da caverna que Papel fechou em seguida.




− Não podemos ficar aqui para sempre. − falou Dente enquanto Nandinho observava Nessa e Papel cuidarem de Pé.
− Talvez os destroços derrubem eles para nós. − respondi.
− Aí eu crio uma camada de gelo por cima e… o que ela faz aqui?
− Estou lutando contra um inimigo em comum.
− E o que isso significa a longo prazo? − perguntou Nessa. − O inimigo de meu inimigo é meu amigo?
− A curto prazo sim. − respondi.
− E quanto a Testa (Van/Vanessa)? Ela estava nos atacando.
− Foi ela quem nos alertou dos mortos-vivos. − informou Papel.
− Antes de voltar a vida, um demônio mandou que eu desse uma mensagem a ela.
− Que mensagem? − interpelou Nessa.
− Só posso dar a ela.
− E você a trouxe conosco?!
− Não posso mandá-la de volta pro inferno.
− Eu posso.
− Vanessa, não. − segurei seu braço que se preparava para atravessar o corpo moribundo de sua xará. − Ela merece uma segunda chance. Uma chance de se redimir e, quem sabe, ir pro céu.
− Ela disse que um demônio quer que ela entregue uma mensagem a minha irmã. Acha que ela vai pro céu assim?  
Que tipo de mensagem? − perguntou Nandinho.
− Uma carta.
− O quê? − tanto eu, como Papel nos viramos para a mulher. − Você não disse isso. − falei.
− Você não perguntou.
− Eu quero ler. − pediu Pé que acabara de acordar.
Todos olharam de uma para outra enquanto Van tirava do vestido encharcado e maltrapilho uma carta negra, mas não pela tinta e sim pela fumaça do fogo do mundo dos condenados. Enquanto Pé pegava a carta, todos nós nos olhamos então percebi que havia uma pessoa a menos para olhar.
Fui direto pro fundo da caverna criando uma bola de luz que iluminava o local transportando a minha curiosidade sobre o que havia escrito na folha de caderno tirada do envelope para o que a Saiajeans estava fazendo. Encontrei-a de frente para uma estalagmite.
− O que está fazendo?
− Lendo.
Eu não entendi o código, então percebi o que ela e o dragão quiseram dizer quando o último disse: “Mas eu sei ler”. Ele se referia ao meu destino.
− Preciso de luz aqui. − disse ela pedindo que eu me aproximasse.
Sobre a estalagmite um pesado livro se sustentava aberto.
− O que está lendo? − indagou ela.
− O que?
− Eu só vi coisas sobre mim, como o dia em que eu havia me tornado uma Saiajeans nível 3 e minha saia foi encurtada.
Certamente ela deu uma olhada nas páginas anteriores, mas folheei as subsequentes.
 Parei
Prendi a respiração.
Li e deixei a luz cair e se desfazer no chão de pedra molhada.
E Danilo se tornará Mazda e Mazda, Danilo e o segundo matará o primeiro, pois este será mal”.









[1] Ele quis dizer filha de Alice
[2] Proveniente das terras das fadas.
[3] Friedrich Nietzsche em “O Anticristo”
[4] Há várias cores de dragões e cada uma representa um poder disparado pelo mesmo. O dragão vermelho, por exemplo “espirra” fogo enquanto o branco “espirra” uma rajada de gelo.






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